A CANTORIA DAS ÁGUAS
Maria da Glória Colucci*
A presença poética das
águas no cancioneiro popular brasileiro, além das contribuições da literatura
clássica, traduz a dimensão humana e social que possui o precioso líquido.
Os problemas causados pela
falta d´água vão além da simples carência na torneira, das dificuldades com o
asseio de famílias inteiras, ou mesmo com as facilidades rotineiras de seu uso,
mas representam cruel exclusão, desprezo pela “sadia qualidade de vida”, pelos
direitos e princípios constitucionais (art. 225, Constituição Federal de 1988).[1]
Os lamentos da conhecida
melodia de Luiz Antonio e J. Júnior (Lata D´água) denunciam a dolorosa e
humilhante marginalização de pessoas, cuja condição socioeconômica lhes reserva
como moradia as encostas dos morros, sujeitos ao abandono e à constante ameaça
à vida:
Lata d'água na
cabeça/ Lá vai Maria /
Lá vai Maria// Sobe o
morro e não se cansa/
Pela mão/ leva a
criança/
Lá vai Maria// Maria/
lava roupa/lá no alto/
Lutando pelo pão / De
cada dia /
Sonhando com a vida /
Sonhando com a vida / Do asfalto /
Que acaba / Onde o
morro principia.[2]
O comprometimento da saúde
de pessoas e do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do País no cenário
internacional, sobretudo dos mais vulneráveis, como crianças e idosos, é outro
reflexo do perverso e descuidado uso da água nas regiões urbanas e rurais.
Nos centros urbanos os
desabamentos nas encostas e os alagamentos frequentes das avenidas tornaram-se
questões recorrentes, ainda que as promessas políticas sejam no sentido de sua
eliminação a curto prazo. No entanto, as reais causas não residem apenas nas
mudanças climáticas, mas estão nos desmatamentos e assoreamentos dos rios, além
da destruição das matas ciliares; e também da “morte das fontes”:
A ocupação das várzeas,
brejos e banhados também reduz a oferta de água. Esses ambientes, onde a água
costuma ficar armazenada e vai formar os rios, muitas vezes são aterrados para
permitir a ocupação humana. Esses aterros destroem os “armazéns” de água e
reduzem a vazão dos rios.[3]
As fontes naturais ao
serem soterradas desaparecem, impedindo que o acesso à água se viabilize, além
de causar aridez do solo e a desertificação das cercanias. A construção de
diques, piscinas e reservatórios pode, aparentemente, reter as águas naturais,
mas, com o passar do tempo, causam problemas de saúde pública pela dificuldade
de manutenção da qualidade da água e da vida da população.
O acúmulo de lixo polui as
bacias hidrográficas e os mananciais, dos quais dependem o fornecimento de água
potável às populações.
A agricultura de
subsistência padece pela longa estiagem, com morte do gado e miséria dos
pequenos agricultores, como aparece cantada em belos versos de Raul Torres e
João Pacífico:
Eu fiz promessa, pra
que Deus mandasse chuva,
Pra crescer a minha
roça e vingar a criação,
Pois veio a seca, e
matou meu cafezal,
Matou todo o meu
arroz e secou todo algodão!
Nessa colheita, meu
carro ficou parado,
Minha boiada
carreira, quase morre sem pastar
Eu fiz promessa, que
o primeiro pingo d´água
Eu molhava a flor da
santa, que tava em frente do altar.[4]
As narrativas poéticas
deixam entrever o sofrimento e ao mesmo tempo a ignorância do homem, iletrado
ou não, e a sua contínua contribuição à desertificação e ao desaparecimento dos
rios, lagos e fontes: “Fui na fonte do Itororó? Beber água e não achei?
Encontrei bela morena/ que no Itororó deixei”.[5]
A queima dos nutrientes do
solo, causada por esta antiga prática, considerada mais rápida e econômica,
ainda responde pelo grande número de incêndios e irreversível destruição da
qualidade de vida de homens e animais. A desolação, a dor e a aflição
provocadas pelo sertanejo à natureza e à economia regional aparecem cantados
nos inesquecíveis versos de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira:
Quando
olhei a terra ardendo,
Qual
fogueira de São João
Eu
perguntei a Deus do céu, ai
Por que
tamanha judiação.
Que
braseiro! Que fornalha!
Nem um
pé de plantação
Por
falta da água perdi meu gado
Morreu
de sede meu alazão.
Inté
mesmo a Asa Branca
Bateu
asas do sertão
Entonces
eu disse adeus Rosinha
Guarda
contigo meu coração.[6]
A esperança no reverdecer
das pastagens, o retorno ao lar e a saudade sempre presentes no coração dos
retirantes é traduzida na beleza dos últimos versos da conhecida canção:
Hoje longe muitas
léguas
Numa triste solidão
Espero a chuva cair
de novo
Pra mim voltá pro meu
sertão.
Quando o verde dos
teus olhos
Se espalhá na
plantação
Eu te asseguro, não
chore não, viu?
Que eu voltarei, viu,
meu coração.[7]
Os pássaros, as flores e a
agradável brisa da tarde se extinguem debaixo do ardente calor do sol. A chuva
esperada ansiosamente nem sempre consegue ser retida em poços improvisados ou
artesianos, voltando as aflições da
falta de água e o ciclo se reinicia...
Pedro Sá Pereira e Ary
Pavão compuseram antiga melodia, cantando com alegre rima e conhecido refrão, a
separação de moças do lar ainda em idade de permanecerem com a família, segundo
os costumes mais recatados da época:
Deixa a cidade
formosa morena
Linda pequena e volta
ao sertão
Beber a água da fonte
que canta
Que se levanta no
meio do chão.
Se tu nasceste
cabocla cheirosa
Cheirando a rosa do
peito da terra
Volta pra vida serena
da roça
Daquela palhoça do
alto da serra.
E a fonte a cantar,
chuá, chuá
E as águas a correr,
chuê, chuê
Parece que alguém,
que cheio de mágoa
Deixasse quem há, de
dizer a saudade
No meio das águas,
rolando também.[8]
O amor deixado para trás,
a companhia do ser querido trocada pela necessidade de partir em busca de dias
melhores inspirou os sentidos versos de Raul Torres:
“Adeus morena! Eu vou
Do lado que o vento
vai
Amanhã, muito
cedinho,
Peço a benção dos
meus pais.
Quando de ti me
afastei,
No Riacho da alegria,
Tanto meus olhos
choravam,
Como o riacho
corria...”[9]
Também o poder
higienizador da água, ainda que em sentido figurado, lavando a maledicência,
inspirou marchinha de carnaval (1955), cujo refrão é bem conhecido “A água lava
tudo.../ só não lava a língua da gente...”[10]
Em minha infância
marcou-me muito a “mina”, como era chamado o olho d´água, que brotando do chão
inundava a várzea onde crescia o arrozal da fazenda dos meus avós, em
Comendador Venâncio, no interior do Rio de Janeiro. Os banhos de “bica”, feita
de bambu e cercada de sapé; as frutas e pássaros da região permaneceram em
minhas mais doces lembranças até agora... No entanto, os valiosos recursos
naturais que não foram preservados depois de sucessivas gerações e da
exploração do solo, desapareceram de modo irreversível.
Hoje, em muitos lugares,
crianças, adolescentes e jovens não poderão mais usufruir de parques naturais,
matas ciliares, fontes cristalinas, canto dos pássaros e outros encantos da
natureza, devido à cruel devastação que sofreram ricas regiões nativas, em
virtude da ignorância de gerações passadas e presentes...
Guilherme Arantes traduziu
a importância da água doce, potável, na sobrevivência do Planeta, ao cantá-la,
em versos da seguinte forma:
Água que nasce na
fonte serena do mundo
E que abre um
profundo grotão
Água que faz inocente
riacho e deságua
Na corrente do ribeirão
Águas escuras dos
rios
Que levam a
fertilidade ao sertão
Águas que banham
aldeias
E matam a sede da
população
Águas que caem das
pedras
No véu das cascatas
ronco de trovão
E depois dormem
tranquilas
No leito dos lagos,
no leito dos lagos […][11]
As licenças poéticas
permitem – muito mais que a linguagem científica, formal e fria – descrever o
real cenário de agressão às águas de nascentes, várzeas, banhados, poços, rios,
lagos, mares etc, uma vez que retratam o sentimento popular de perda, de
tristeza e abandono das riquezas hidrográficas do País.
A marcante presença do
Ipiranga, em cujas margens plácidas a independência do Brasil foi proclamada,
inspirou a primeira estrofe do Hino Nacional: “Ouviram do Ipiranga as margens
plácidas...” – permanecendo até hoje em vívida imagem da histórica data do País!
Cidades, populações
inteiras se formaram às margens dos rios, baías, lagos, etc, por este Brasil
afora, vinculando a vida de famílias, suas esperanças e riquezas, do nascimento
até a morte. Podem ser citadas, ainda, as belezas da Baía de Guanabara, que
imortalizaram o Rio de Janeiro nos cartões postais...
A falta de chuva, a
mortandade dos peixes, o abandono crescente das populações ribeirinhas, dentre
outros graves problemas econômicos e sociais, chamam a atenção de cidadãos e autoridades para o fato de que
a proteção jurídica das águas é uma questão urgente de segurança e educação
nacional.
REFERÊNCIAS
[1]
BRASIL. Constituição (1988).
Disponível em:
2
J. JUNIOR/ Luís Antonio. Lata
d´água. Coletânea sobre a água. Coordenação de Teresa Urban. Curitiba: Cromos
Editora, sem data, p. 18-19.
3Coletânea sobre a água, idem, p. 21.
4
TORRES, Raul/ João Pacífico.
Pingo d´água. Coletânea sobre a água, idem, p. 74-7.
5
Cantiga Popular: autoria
desconhecida. Itororó. Coletânea sobre a água, idem, p. 56.
6
GONZAGA, Luís/ Humberto
Teixeira. Asa Branca. Coletânea sobre a água, idem, p. 80.
7
Idem, p. 81.
8
PEREIRA, Pedro Sá/ Ary Pavão.
Chuá – Chuá. Disponível em: <www.suacasa.com.be>.
9
TORRES, Rau. Do lado que o vento
vai. Coletânea sobre a água, idem, p. 66.
10
PAQUITO, Romeu Gentil e Jorge
Gonçalves. A água lava tudo. Disponível em: < http://letras.mus.br/paquito.
11
ARANTES, Guilherme. Planeta
água. Coletânea sobre a água, idem, p. 84.
* Mestre
em Direito Público pela UFPR. Especialista em Filosofia do Direito pela PUCPR.
Professora titular de Teoria Geral do Direito do UNICURITIBA. Professora
Emérita do Centro Universitário Curitiba, conforme título conferido pela
Instituição em 21/04/2010. Orientadora do Grupo de Pesquisas em Biodireito e
Bioética – Jus Vitae, do UNICURITIBA,
desde 2001. Professora adjunta IV, aposentada, da UFPR. Membro da Sociedade
Brasileira de Bioética – Brasília. Membro do CONPEDI – Conselho Nacional de
Pesquisa e Pós-Graduação em Direito. Membro do IAP – Instituto dos Advogados do
Paraná.
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