DESPERSONALIZAÇÃO DO PROFISSIONAL
DA EDUCAÇÃO NA ESCOLA-EMPRESA
Maria da Glória Colucci[1]
O modelo econômico adotado pela Escola-Empresa é
marcado pela despersonalização dos profissionais do magistério, impondo-lhe
diversas tarefas (professor-tarefeiro), sobretudo, comprometidas estas com o
uso da multimídia.
A despersonalização se verifica por diversas
atitudes dos gestores, no sentido de darem maior crédito à tecnologia do que à
marcante figura do (a) professor(a), cuja postura, exemplo e conhecimentos
sempre fizeram a diferença na relação ensino-aprendizagem.
A despersonalização chegou ao ponto de, ao se
reduzir a carga horária dos mestres (as), seus salários serem insuficientes
para atender ao que se conhece como “mínimo existencial” (art.7º, IV, da
Constituição de 1988).
O sentimento de desvalor que acompanha o (a)
professor (a) em seu dia a dia se traduz na diminuição de seu empenho,
causando-lhe intenso sofrimento, como se seu trabalho nada representasse para a
arrogante Escola-Empresa. Efeitos em sua saúde física, mental e emocional se
tornam evidentes, sob a forma da síndrome de burnout.[2]
Inflexível em seu projeto de monetarização da
educação superior, a Escola-Empresa avançou em direção aos seus
alunos-consumidores, cujos direitos são, igualmente, fragilizados pela redução
da carga horária e precarização do ensino.
Ao lado da monetarização dos pleitos acadêmicos e
da despersonalização dos profissionais da educação (professores e
colaboradores), a baixa qualidade da comunicação dos gestores com seus
submissos (e apavorados subalternos) e as ameaças de desemprego estão sempre
pairando sobre suas cabeças, ou seja, a qualquer momento (por celular) poderão
ser dispensados em nome do equilíbrio orçamentário da Escola-Empresa (...).
A exploração, o menosprezo e o desrespeito aos
direitos individuais e coletivos têm gerado muitas ações na Justiça e clamores
nas redes sociais; mas a Escola-Empresa permanece impassível, empenhada na
promoção de um ambiente hostil, sem solidariedade e sem boas relações humanas,
desprezando os mais elementares valores e princípios, que alavancaram a
educação ao redor do mundo, sempre em busca do lucro.
Como em qualquer atividade humana, há uma fase de semeadura e outra de colheita, podendo haver uma correção de rumos, com a superação dos desacertos e os ajustes necessários.
No entanto, o poderio econômico que acompanha a Escola-Empresa, inclusive com investimentos internacionais, não permite aos seus gestores admitirem que suas propostas pedagógicas e seus processos avaliativos ofereçam erros ou precisem de mudanças (...).
A Escola-Empresa traz à toa uma questão
conflitante, qual seja, o embate entre priorizar o ser humano, a pessoa, ou
sobrepor o interesse econômico aos sentimentos, valores e bem-estar individual
e coletivo. A escolha cabe aos seus gestores, que devem se inspirar no art.
206, CF, cujos princípios estão alicerçados na liberdade, igualdade, pluralismo
e dignidade da pessoa humana.
Como toda mudança, o modelo econômico da
Escola-Empresa levará algum tempo para demonstrar seus resultados práticos
(sucesso financeiro); já que os didáticos e pedagógicos são evidentes: nada
promissores, precários e sem qualidade (...)
Basta observar!
[1]Advogada (7234, OAB-Pr); professora universitária
aposentada pela UFPr. Mestre em Direito. Cientista e escritora.
[2]
COLUCCI, Maria da Glória. Saúde mental da mulher no ambiente de trabalho: a
síndrome de burnout (OMS, 2019); in Direito sob a perspectiva feminina:
homenagem à Profª. Viviane Coêlho de Séllos-Knoerr/coord. Debora Cristina de
Castro da Rocha, Luciane Maria Trippia; org. de Samira Zeinedin Chweih, Viviane
Duarte Cristo de Cristina. Curitiba: Juruá, 2019, p.125-136.
Nenhum comentário:
Postar um comentário