PEDAGOGIA DO ABSURDO NA
ESCOLA-EMPRESA
Tudo leva a crer que o sucateamento da educação
superior, em particular, está alcançando níveis alarmantes em nosso País.
A partir do entendimento que os modelos de instituições
privadas de ensino superior, até recentemente adotados, somente davam (dão)
prejuízos aos seus proprietários, passou-se a “copiar” modalidades empresariais
estrangeiras, de países desenvolvidos e prósperos, onde o “lucro” inspira as
decisões dos grupos de investidores, acionistas, capitalistas etc.
Por outro lado, o modelo Escola-Empresa prioriza a
“quantidade” (de alunos, de recursos, de investimentos, ações etc) em
detrimento da “qualidade” (das aulas, dos conteúdos, da bibliografia etc), onde
a tecnologia e a despersonalização predominam sobre os valores humanos,
universais e duradouros, que devem ser a base da educação, como instrumento de
mudança individual e coletiva.
Não se espera que a atividade econômica voltada ao
ensino, em qualquer nível, seja inviabilizada pelas perdas financeiras dos
alunos; ao ponto de levarem as empresas à falência, ou recuperação judicial,
como acontece em muitos casos; mas que a “qualidade”, a excelência e a
proficiência do saber ministrado pelas instituições seja o alvo principal.
No entanto, para atender aos propósitos
mercantilistas da Escola-Empresa, foi projetada o que se pode denominar de
“pedagogia do absurdo”, cuja essência é “minimizar” a carga horária, os
conteúdos programáticos, a bibliografia, a pesquisa científica, os eventos
acadêmicos e a titulação dos professores...
Alegam os investidores e acionistas, incentivados
pelos gestores da Escola-Empresa, falsamente, que as providências de redução da
carga horária, dentre outras “minimizações”, visam baratear o acesso ao curso
superior do maior número de brasileiros; valendo qualquer “esforço” neste
sentido; mesmo que em detrimento da “qualidade” (...).
Para quem labuta no ensino superior há longo tempo,
as comparações são inevitáveis, porque, sobretudo na área do Direito, as
faculdades particulares sempre buscaram a excelência acadêmica, como critério
distintivo, visando o bom desemprenho de seus ex-alunos no Exame da Ordem dos
Advogados e em importantes carreiras jurídicas conhecidas (Magistério, Ministério
Público e Magistratura).
No entanto, o que se tem observado é que este
propósito não mais se apresenta como importante na Escola-Empresa, porque o que
interessa é o resultado financeiro, o sucesso dos investidores e a alta das
ações na Bolsa de Valores (...).
Acompanhando a proposta de mercantilização do
ensino superior, a Escola-Empresa procura atrair professores (as),
recém-titulados (as) pagando-lhes uma base salarial indigna; porém
exigindo-lhes o cumprimento de carga horária exaustiva; com várias “unidades
curriculares”, deixando ao tutor (professor) encontrar meios de “espremer” o
conteúdo durante as aulas (presenciais e virtuais), conforme conseguir (...).
Antigos (as) professores (as), cujo conhecimento e
experiência poderiam ser ricamente compartilhados, são dispensados (as), porque
são vistos como pesados aos orçamentos da Escola-Empresa; ou mesmo superados
(as) em suas ideias e “velhos”, em evidente discriminação pela idade,
contrariando o Texto Constitucional (art. 3º, IV, CF), que tem como objetivo da
República “promover o bem de todos”, vedadas todas as formas de preconceitos.
Acresce que a Escola-Empresa adota como critério
econômico-financeiro a demissão em massa de professores (as), em “lista
sigilosa”, que contribuíram durante longo tempo para o aprimoramento do ensino
nestas instituições, sem avaliar o seu desempenho, a produção científica ou
mesmo a dedicação e o amor à educação superior.
Por fim, lamenta-se pelas futuras gerações de
profissionais do Direito, da Medicina, da Engenharia e de outras importantes
áreas do conhecimento no País, que serão prejudicados pelos “novos ecossistemas
de ensino”, impostos com base em uma visão mercantilista, desumana e distorcida
da educação.
Basta esperar!
[1]Advogada (7234, OAB-Pr); professora universitária
aposentada pela UFPr. Mestre em Direito. Cientista e escritora.
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