sexta-feira, 11 de setembro de 2020

 

TERRORISMO: LIMITES À INTOLERÂNCIA RELIGIOSA

 

 Maria da Glória Colucci[1]

 

Por acaso há limites à intolerância humana?

Parece que não. A cada momento atos de selvageria e destruição da vida e da liberdade se multiplicam, sob as motivações mais incoerentes e absurdas. Os recentes atentados terroristas praticados por grupos fundamentalistas islâmicos, que se autodenominam seguidores fiéis do Islã, demonstram à evidência como seres humanos podem chegar ao extremo desvario de “matar” em nome de ideologias religiosas...

Em defesa de crenças ultrapassadas e sem sentido, não só no Ocidente, mas entre os próprios nacionais da Síria, os “jihadistas” combatem os seus conterrâneos de sangue e de fé que, desesperados, fogem em direção aos países mais prósperos da Europa, pedindo abrigo.

Com o objetivo de destruir a sociedade ocidental, espalham-se pelo Egito, Líbia, Iêmem, Afeganistão, Nigéria etc, arrebanhando simpatizantes e seguidores que seduzidos pela propaganda, via internet, aderem à doutrinação, tornando-se “legionários estrangeiros”. Uma vez ingressando no grupo, jovens inexperientes descobrem, depois, que o caminho de volta é quase impossível!

Imagens de terror com decapitações, amputações de mãos, apedrejamentos de mulheres, escravidão sexual de meninas e moças, crucificação de “hereges” e outros tantos delírios de fanáticos violentos, verdadeiras “bestas feras”, aterrorizam e fazem calar os que se opõem às suas descabidas e arcaicas crenças.

Os ataques praticados em Paris, em 13 de novembro, no Bataclan, no Le Carrillon e na Rue de Charonne, para citar apenas exemplos de carnificinas recentes, como a ocorrida no Le Petit Cambodge, sinalizam que os militantes jihadistas, enlouquecidos, seguem dominados por sua ideologia cruel em que a morte é o supremo bem e viver é uma “inutilidade”.

Os terroristas do EI (Estado Islâmico) tentaram atingir algo que não possuem, qual seja, a liberdade e alegria de viver que marcam o modo de ser ocidental (la joie de vivre). Não escolheram viver como jovens, amar e serem amados, desfrutar das benesses da juventude, que duram tão curto tempo... Mas, movidos pela inveja, escolheram viver como ratos pelos esgotos de Paris, quando podiam desfrutar da liberdade e não das sombras, porque optaram por ser escravos de uma ideologia pretensamente divina, mas que no seu âmago é satânica e destruidora.

Esquecem-se que se tornarão pó como todos os mortais e que prestarão contas de seus atos, não importa o nome do deus a que sirvam. Mais cedo ou mais tarde se autodestruirão, porque por mais longo que seja o caminho, a Vida e a Liberdade se sobreporão à morte e à escravidão, como sempre foi e continuará sendo! 

 



[1] Advogada. Mestre em Direito Público pela UFPR. Especialista em Filosofia do Direito pela PUCPR. Professora titular de Teoria do Direito do UNICURITIBA. Professora Emérita do Centro Universitário Curitiba, conforme título conferido pela Instituição em 21/04/2010. Orientadora do Grupo de Pesquisas em Biodireito e Bioética – Jus Vitae, do UNICURITIBA, desde 2001. Professora adjunta IV, aposentada, da UFPR. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética – Brasília. Membro do Colegiado do Movimento Nós Podemos Paraná (ONU, ODM). Membro do IAP – Instituto dos Advogados do Paraná

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

 

POLÍTICAS PÚBLICAS NA IMPLEMENTAÇÃO DOS OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ONU)

 

Maria da Glória Colucci[1]

1 INTRODUÇÃO

As políticas públicas são (devem ser) instrumentos de atuação direta do Estado na promoção do bem-estar social e, por via de consequência, do acesso igualitário a todos aos bens e serviços.

As diferentes formas de intervenção do Estado na implementação dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável são firmadas após estratégias e metas, previamente estipuladas, terem fixados os fins pretendidos.

Destarte, ladeados pelos direitos sociais, os ODS, em um total de 17 (dezessete), representam uma síntese dos desígnios dos signatários da Declaração - “Transformando Nosso Mundo: Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” – estabelecidos pelos Chefes de Estado e de Governo, de 25 a 27 de setembro de 2015, na sede das Nações Unidas.[2]

Embora as políticas públicas visem, minimamente, a promoção do interesse coletivo, não se pode descurar a importância da consecução das necessidades individuais básicas, elencadas na Constituição vigente (art. 7º, IV), como suporte essencial à vida do trabalhador e de sua família.

As “necessidades vitais” não são meros desejos individuais, resultantes das vaidades humanas, ou da busca de status, mas correspondem às condições de sobrevivência, de continuidade da vida, a exemplo, do acesso à alimentação, à saúde, à moradia, ao transporte, à segurança, dentre tantos outros direitos sociais, econômicos e patrimoniais[3]

O incentivo às parcerias público-privadas na revitalização de antigos projetos e empreendimentos, iniciados e abandonados pelo Poder Público, devido à escassez de recursos ou à corrupção, representa valioso mecanismo de promoção do bem-estar social; conforme o ODS 17 propõe.[4]

 

O bem-estar recebe diferentes denominações, levando-se em conta o próprio Texto Constitucional, cuja diversidade de termos deixa claro (art. 3º, I a IV) que as desigualdades sociais e regionais devem ser reduzidas e a pobreza erradicada.[5]

 

2 POLÍTICAS PÚBLICAS: COLETIVO E INDIVIDUAL

Os conflitos presentes em uma economia de mercado representam a base do que se tem denominado de “monetarização da natureza”, em que a relação entre retorno econômico e danos ambientais têm ocupado a atenção de estudiosos, pesquisadores e defensores dos direitos fundamentais”.[6]

Conforme assinala Claudete de Castro Silva Vitte, as políticas públicas, embora priorizem, predominantemente, o interesse geral, o coletivo, não devem abandonar (ou até mesmo ignorar) a individualidade dos seus cidadãos:

 

Ignorar o que há de subjetivo nos indivíduos focalizando apenas os problemas materiais como aspectos fundamentais para a construção de um projeto de felicidade coletiva, conforme muitos entenderam o planejamento governamental e os projetos de desenvolvimento levados a cabo em diversos países dos mais variados tipos, mostrou-se algo falho.[7]

 

Portanto, sem desprezar o coletivo, as políticas públicas em sustentabilidade devem fortalecer as oportunidades e as vias de acesso aos cidadãos à consecução de seus objetivos pessoais, para muitos vistos, apenas, como “desejos’ ou aspirações egoístas.

Os índices de vulnerabilidade social, embora considerados coletivamente, partem das condições individuais de saúde, trabalho, educação, transporte etc. Por tal motivo, as políticas públicas, na implementação dos ODS, devem levar em conta as circunstâncias em que vivem e se desenvolvem os problemas humanos individuais.

Está diretamente relacionada aos conflitos humanos a exclusão social – cujas formas de expressão se revelam no acesso à educação, ao trabalho qualificado, face às novas tecnologias; ao saneamento básico e à moradia.

A sustentabilidade, embora inicialmente vinculada apenas ao meio ambiente, evoluiu no sentido de abranger aspectos socioeconômicos e políticos, devido à inegável interlocução existente entre Direito, Política e Sociedade.

A percepção multidisciplinar do fenômeno jurídico – econômico e social promove a ampliação dos horizontes hermenêuticos, conforme destaca Cristiane Derani:

 

O tratamento adequado do interrelacionamento dos objetivos tratados pelos arts. 170 e 225 da Constituição Federal revela-se numa prática interpretativa que avalie a complexidade do ordenamento jurídico. Busca-se a concretização de políticas públicas capazes de revelar sua globalidade, em vez de reproduzir os discursos que exaltam oposição que não é material, mas ideológica.[8]

 

Quanto à qualidade de vida, diretamente afetada pelas condições de vida e saúde, a falta de saneamento básico e as doenças recorrentes, as epidemias e o alastramento de focos de zoonoses, as políticas públicas parecem estar distantes e defasadas em recursos e pessoal especializado.

A insegurança coletiva, no tocante à circulação pelas vias públicas, de pessoas e veículos, se oferece como um dos mais aflitivos problemas sociais, diante do elevado número de homicídios, feminicídios, sequestros, estupros, suicídios, uso de drogas etc.

Desta sorte, os ODS, em sua diversidade de perspectivas, contemplam os grandes desafios da contemporaneidade, tanto para o Estado, quanto para a sociedade e os cidadãos perplexos e desorientados, diante de problemas tão antigos, cujas soluções são sempre adiadas, conforme constata Sonia Nahas de Carvalho:

 

No Brasil, desde meados da década de 1970, assistiu-se à inflexão no desenho das políticas e programas públicos destinados às populações urbanas e ao reflorescer dos movimentos de mobilização e organização sociais em um quadro marcado pela persistência de problemas sociais mais agudos e mais visíveis e de solução sistematicamente adiada.[9]

 

Enquanto as políticas forem vinculadas às propostas eleitoreiras, ou seja, apenas como “programas de governo” e não de Estado, a continuidade das iniciativas sempre enfrentará barreiras e seguidas interrupções, pelos conflitos gerados entre correntes e ideologias, que se contrapõem na política brasileira.

O “partidarismo” sufoca as mais positivas iniciativas de governos anteriores, quando os novos eleitos assumem o poder...

Quando o legislador constitucional elencou no art. 170 da Lei Maior princípios regentes da atividade econômica, que têm “por fim assegurar a todos existência digna”, mediante a garantia de trabalho decente e a livre iniciativa, está subjacente a qualidade de vida pelo acesso aos bens e serviços, o que pressupõe o planejamento.

Por seu lado, o planejamento tornou-se um identificador das ações práticas em políticas públicas, governamentais e de Estado, devido a múltiplas razões, dentre as quais as previsões orçamentárias de recursos e pessoal habilitado:

 

A crescente complexidade da vida humana e das organizações na sociedade contemporânea tem evidenciado o papel proeminente da função de planejamento. A necessidade de se antecipar às constantes mudanças no quadro econômico e político, de utilizar seus recursos da forma mais eficiente possível e, enfim, de atingir efetivamente seus objetivos tem levado governos e empresas a se concentrarem mais detidamente no planejamento de suas ações e de suas estratégias de sobrevivência.[10]

 

Fica evidente que a questão central em políticas públicas de desenvolvimento, pressupõe, além de vontade política, planejamento e efetivação.

 

3 AGENDA GLOBAL 2030 E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL

 

A Agenda Global 2030 possui em seu vértice a promoção dos direitos individuais e coletivos, mediante ações práticas de cada Estado compromissado e cooperação internacional, consoante antigas Declarações e Documentos Internacionais que a antecedem.

Pode-se, a título de exemplos, citar a Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente (1972); ou a Carta dos Direitos e Deveres Econômicos dos Estados das Nações Unidas (1974); ou a Conferência das Nações Unidas ou “Cúpula da Terra – a Agenda 21, realizada no Rio de Janeiro, que congregou cidadãos de todo o mundo interessados na preservação da qualidade de vida, além da sustentabilidade ambiental (1992).[11]

Ainda, durante a Eco-92, no Rio de Janeiro, foi assinada a Convenção sobre Mudança do Clima, ratificada no Brasil em 1994; à qual seguiu-se o Protocolo de Kioto (1997), firmado pelos países signatários no sentido de “reduzir a emissão coletiva de gases efeito estufa em pelo menos 5% - se comparados aos níveis de 1990, para o período entre os anos 2008/2012.[12]

Em 2000, com a Carta do Milênio, foram elaborados os ODM – Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, ou seja, os “8 Jeitos de Mudar o Mundo”, que vigoraram até 2015, quando a Agenda 2030 criou os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

A seu turno, os ODS estarão em vigor até 2030, com a proposta de transformação do mundo, mediante metas, estratégias e indicadores de promoção do bem-estar social e qualidade de vida; com ênfase no desenvolvimento humano sustentável.[13] 

Ao construir na Agenda Global pontos convergentes, a ONU e os signatários da Declaração “TRANSFORMANDO O NOSSO MUNDO: AGENDA 2030 PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL”, procuraram encontrar soluções como um todo, regulando a atuação conjunta de governantes e cidadãos do mundo.

A existência de direitos supralegais é uma percepção nem sempre aceita pelo positivismo legalista e tradicional que resume o Direito e os direitos ao mero texto da Lei. No entanto, a Constituição vigente no Brasil (1988), expressamente prevê que: “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (art. 5º§3º).[14]

Sendo incorporados ao texto da vigente Constituição (art. 5º§4º), em decorrência de sua aprovação pelo Congresso Nacional, tornam-se “equivalentes às emendas constitucionais”, conforme a Lei Maior prevê, os direitos humanos emanados dos tratados e convenções internacionais.

Quanto às Declarações, a exemplo da Agenda Global, correspondem a diretrizes comuns acordadas pelos países signatários, não possuindo a força vinculante dos tratados e convenções internacionais, mas, pela importância e seriedade de que se revestem, traduzem a consagração de direitos humanos para além da Lei.

Reunindo os Dez Princípios do Pacto Global e os 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, com lastro nos direitos sociais, presentes na Constituição vigente (art. 6º), fica evidente que, dentre outros resultados, a gestão do Planeta é uma tarefa comum a todos os seres humanos, mediante ações públicas de implementação dos citados ODS.

O papel do Estado torna-se marcante e essencial, a partir do momento que atua com estrutura política central de justiça social, pela igualdade econômica e consequente acesso aos bens e serviços:

 

É ele, o Estado redistribuidor de riquezas, assistencial, empreendedor, que procura manter os conflitos inerentes num ponto mínimo de tensão que permita a livre expansão das forças produtivas dentro de um máximo de eficiência.[15]

 

As forças produtivas merecem do Estado toda atenção, mediante políticas públicas que priorizem a inovação e automação, sem desprezar os reflexos humanos e sociais acarretados pelos avanços das conquistas tecnológicas no trabalho, na indústria e no comércio.

 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            A celeridade das comunicações é, sem dúvida, causa de inúmeros conflitos sociais, provocados pelo mal uso das informações, gerando debates e crises políticas seguidas, sobretudo, pela disseminação de fake news.

            O Estado, a seu turno, valendo-se dos meios de comunicação, pode, também, informar aos cidadãos a evolução das políticas públicas, quanto ao seu planejamento, gestão de recursos e efetivação, correspondendo, destarte, ao que se compreende como “transparência”.

            As exigências constitucionais quanto à seriedade das instituições se encontram no art. 37 do Texto Constitucional, representadas pelos princípios que elenca, garantindo, deste modo, um mínimo de “moralidade” dos gestores públicos.

            Todavia, maculando a Administração Pública estão atos fraudulentos que, não só desviam recursos, como colocam em risco as políticas públicas de desenvolvimento sustentável.

            A precariedade dos serviços de segurança, saúde e educação salta a olhos vistos, tornando o País mais e mais empobrecido, além de esgotar as condições de vida dos cidadãos.



[1] Advogada. Especialista em Filosofia do Direito (PUC-Pr). Mestre em Direito Público (UFPR). Professora aposentada da UFPr. Professora titular de Teoria do Direito (UNICURITIBA). Orientadora do Grupo de Pesquisas em Biodireito e Bioética – Jus Vitae. Membro do Instituto dos Advogados do Paraná (IAP). Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Membro da Comissão do Pacto Global (OAB-Pr). Membro da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ-Pr). Membro do Movimento Nacional ODS (ONU, Pr). Membro da Academia Virtual Internacional de Poesia, Arte e Filosofia- AVIPAF. Membro do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do UNICURITIBA. Escritora e poetisa, com vários prêmios em textos jurídicos e poéticos.

[2] ONU. Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável; disponível em www.nacoesunidas.org.br

[3] PINHO, Rodrigo César Rebello. Teoria Geral da Constituição e Direitos Fundamentais. 9.ed. São Paulo: Saraiva, 2009, p.68 e segs.

[4] ONU. Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável; disponível em www.nacoesunidas.org.br

[5] BRASIL, Constituição da República Federativa do. 1988, disponível em www.planalto.gov.br

[6] DERANI, Cristiane. Direito ambiental econômico. 3 ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p.99.

[7] VITTE, Claudete de Castro Silva. A qualidade de vida urbana e sua dimensão subjetiva: uma contribuição ao debate sobre políticas e sobre a cidade. In Qualidade de vida, Planejamento e Gestão Urbana: discussões teórico – metedológicas. Org. Claudete de Castro Silva Vitte e Tânia Margarete Mezzono Keinert. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p.101.

[8] DERANI; Cristiane. Op.cit; p.103.

[9] CARVALHO, Sonia Nahas de. Condicionamento e possibilidades políticas do planejamento urbano. In. Qualidade de Vida, Planejamento e Gestão Urbana: discussões teórico – metodológicas.

[10] MENEZES, Luís Carlos Araújo e Paulo de Martino Jannuzzi. Planejamento nos municípios brasileiros: um diagnóstico de sua institucionalização e seu grau de efetividade. In. Qualidade de vida, Planejamento e Gestão Urbana: Discussões teórico-metodológicas. Org. Claudete de Castro Silva Vitte, Tânia Margarette Mezzono Keimert. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2009, p.70.

[11] ONU. Agenda 21. Disponível em www.mma.gov.br (Ministério do Meio Ambiente).

[12] TEIXEIRA, Orci Paulino Bretanha. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilíbrio como direito fundamental. Porto Alegre: Livraria do Advogado Ed; 2006, p.31-34.

[13] ONU. Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável; disponível em www.nacoesunidas.org.br

[14] BRASIL, Constituição da República Federativa do. 1988, disponível em www.planalto.gov.br

[15] DERANI; Cristiane. Op.cit; p.103.

 

 

DECLARAÇÃO UNIVERSAL SOBRE BIOÉTICA E DIREITOS HUMANOS: DIÁLOGO COM OS ODM (2000) E OS ODS (2015-2030)

 

Maria da Glória Colucci[1]

 

1 INTRODUÇÃO

 

           A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos foi elaborada pelos países integrantes das Nações Unidas, tendo sido, em 19 de outubro de 2005, aprovada na 33 ª Sessão da Conferência Geral da Unesco, realizada em Paris, por aclamação de 191 países componentes da Organização.

           A Declaração corresponde à última etapa das Declarações emanadas da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura), cujos antecedentes são representados pela Declaração Universal sobre o Genôma Humano e os Direitos Humanos (1997) e pela Declaração Internacional sobre os Dados Genéticos Humanos (2003).

           A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos levou em consideração princípios já consignados na Declaração Universal dos Direitos do Homem (1948), além do Pacto Internacional das Nações Unidas sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais e o Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966); a Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança (1989), dentre outros instrumentos internacionais e regionais no campo da Bioética.

           Para a interpretação da Declaração devem ser preservados os valores éticos que alicerçam as diferentes culturas, a identidade individual e a cooperação internacional para assegurar que os avanços da ciência e da tecnologia sejam direcionados ao interesse da humanidade, sem exclusão de pessoas ou de etnias.

           No que respeita às ciências da vida, à Medicina e às tecnologias aplicadas aos seres humanos, o artigo 1º da Declaração deixa evidente que seu escopo é estabelecer orientações, princípios, procedimentos etc, para os Estados, que deverão ser incorporados à legislação interna de cada país.

           A Declaração assinala a necessidade de articulação do progresso e do desenvolvimento com a melhoria das condições sociais, incluindo a saúde, a alimentação, a educação, visando a redução da pobreza, da marginalidade, do analfabetismo e de toda forma de exclusão social.

           Igualdade, justiça, equidade, não-discriminação, respeito pela diversidade cultural e pelo pluralismo, solidariedade, cooperação, respeito pela vulnerabilidade humana, integridade individual, privacidade e confidencialidade, dentre outros direitos, são regulados pela Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos.[2]

 

2 OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO (ONU, 2000) E OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL (ONU, 2015-2030)

 

           A Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (2005) possui evidente interlocução com os ODM (2000-2015) e ODS (2015-2030), devido às questões centrais que as motivam, quais sejam, a pessoa humana, o planeta e preservação da dignidade e qualidade de vida.

           Quanto aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) foram frutos dos debates que se desenrolaram ao longo da década de 90, sobre população, meio-ambiente, gênero, saúde, direitos humanos, desenvolvimento social e etc, sendo, finalmente, em 2000, na sede da ONU, em Nova York, firmados por líderes de 191 países, com a finalidade de promover o desenvolvimento humano sustentável, até 2015, mediante o estabelecimento de 8 (oito) Metas ou Objetivos:[3]

1. Erradicar a extrema pobreza e a fome; 2. Atingir o ensino básico universal; 3. Promover a igualdade de gênero e a autonomia das mulheres; 4. Reduzir a mortalidade infantil; 5. Melhorar a saúde materna; 6. Combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; 7. Garantir a sustentabilidade ambiental; 8. Estabelecer uma parceria mundial para o desenvolvimento.

            Ao aprovar os ODM (2000) e a Declaração Universal sobre Bioética e Direitos Humanos (2005), a ONU – Organização das Nações Unidas -  pretendeu superar o individualismo tradicional, marcante no trato das questões do desenvolvimento, promoção e cooperação para a sadia qualidade de vida e dignidade da pessoa humana, considerando o indivíduo como cidadão do planeta e não apenas de um certo país.

            Inaugurando uma nova era de sustentabilidade e resgate da cidadania, a ONU espera ativa participação de cada Estado, região, município etc, visando o fortalecimento de uma prática política, econômica, social, cultural e assim em diante, voltada para a promoção dos valores éticos, com a inclusão de todos os seres vivos, homens e animais, em uma relação de colaboração.

Conforme Bobbio ressalta, citando Kant, somente em épocas de turbulência histórica é que se encontram (ou são procuradas) respostas aos problemas humanos; portanto, pode-se observar que as diversas organizações internacionais precitadas tinham (e ainda possuem) como foco o enfrentamento de problemáticas sociais de longo alcance, mediante a cooperação; a saber: saúde, educação, trabalho, alimentação, ciência e cultura: “Kant sabia muito bem que a mola do progresso não é a calmaria, mas o conflito”.[4]

            A atualidade da política internacional sinaliza para a eclosão de graves conflitos internos, que se refletem em países onde os direitos sociais, políticos e ambientais são, de contínuo, violados; a exemplo, na Venezuela e nos países africanos.

            No Brasil, a “solução pacífica dos conflitos” se inclui entre os princípios regentes das relações internacionais, conforme o Texto Constitucional de 1988 (art. 4º, VII).[5]

A cooperação internacional é, na Constituição de 1988, um dos princípios regentes das “relações internacionais (art. 4º, IX), ladeada pela prevalência dos direitos humanos dos povos (art. 4º, III) e igualdade entre os Estados (art. 4º, V).[6]

Pode-se, em recente percurso evolutivo, primeiramente, lembrar o Documento de 10 de janeiro de 2012, intitulado “O Futuro Que Queremos”, denominado “Rascunho Zero da Rio +20’, que delineou os novos “Objetivos”, que iriam substituir os ODM.[7]

            Na sequência, foi elaborado o “Documento Final da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável” (de junho de 2012).[8]

O Documento denominado “Transformando Nosso Mundo: Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável” representa um avanço considerável na defesa dos direitos fundamentais, quando se propõe a incentivar e promover, mediante ações práticas, os anseios da comunidade internacional em prol de uma sociedade mais justa e igualitária.

Conhecida como “Agenda Global” ou, também, “Agenda 2030”, o precitado Documento elegeu direitos humanos e sociais, que correspondem, em sua essência, no Texto Constitucional em vigor, aos princípios fundamentais (arts. 1º a 4º) e aos direitos consagrados nos arts. 6º a 11 da Lei Maior.

A Agenda 2030 em sua “Declaração” deu ênfase significativa aos direitos sociais, tais como alimentação (ODS 1 e 2); saúde (ODS 3), educação (ODS 3); igualdade (ODS 5); água potável (ODS 6); energia (ODS 7); trabalho decente (ODS 8); segurança (ODS 11); moradia (ODS 11); consumo (ODS 12).

            Além dos direitos sociais, a Agenda 2030 confere grande importância aos direitos ambientais, como seguem: saneamento (ODS 6); mudanças climáticas (ODS 13); tutela dos oceanos, mares e recursos marinhos (ODS 14); ecossistemas terrestres, florestas, biodiversidade (ODS 15).

            Quanto aos direitos políticos observa-se nos ODS 10 (igualdade entre os países e dentro deles); ODS 16 (sociedades pacíficas e inclusivas); acesso à Justiça (ODS 16) e parceria global para o desenvolvimento sustentável (ODS 17).

            A transnacionalização dos direitos confere às pessoas a garantia de em qualquer parte do Planeta reivindicar os direitos precitados, além de outros que deles decorrem, não só com base na Agenda 2030, mas também nas Declarações de Direitos e no Pacto Global, firmados pelos Chefes de Estado e do Governo e Altos Representantes dos países e povos signatários.

As “Declarações de Direitos” adquiriram grande importância no século XXI devido ao diálogo internacional em prol dos direitos humanos fundamentais, mas permanecem, ainda, em muitos casos como “Cartas de Boas Intenções” se não houver ações práticas no sentido de sua efetivação.

 

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

            Prosseguindo no mesmo escopo, os ODS foram elaborados com a finalidade de ampliar os ODM, reafirmaram, também, o princípio ético fundamental da “dignidade da vida”, qual seja, do respeito e proteção a todas as formas de vida, a começar da vida humana.

            A Declaração sobre Bioética e Direitos Humanos, no Artigo 22-a, reafirma o papel dos Estados na promoção dos princípios por ela estabelecidos; no sentido de adotarem medidas de caráter legislativo, administrativo ou de qualquer outra natureza, que implementem e estimulem as práticas éticas que as inspiram.

            O respeito pela privacidade e confidencialidade (Artigo 9) das informações dos indivíduos envolvidos nas pesquisas; bem como a igualdade entre todos os seres humanos deve ser garantida, visando promover um tratamento justo (Artigo 10).

            Seus princípios devem ser resguardados, interpretados e aplicados como interrelacionados e complementares (Artigo 26).

            Por fim, a Declaração, expressamente, faz “Recusa a Atos Contrários aos Direitos Humanos, às Liberdades Fundamentais e Dignidade Humana (Artigo 28)”.

 

REFERÊNCIAS

[1] Advogada. Especialista em Filosofia do Direito (PUC-Pr). Mestre em Direito Público (UFPR). Professora aposentada da UFPr. Professora titular de Teoria do Direito (UNICURITIBA). Orientadora do Grupo de Pesquisas em Biodireito e Bioética – Jus Vitae (desde 2001). Membro do Instituto dos Advogados do Paraná (IAP). Membro da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Membro da Comissão do Pacto Global (OAB-Pr). Membro da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ-Pr). Membro do Movimento Nacional ODS (ONU, Pr). Membro da Academia Virtual Internacional de Poesia, Arte e Filosofia- AVIPAF. Membro do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do UNICURITIBA. “Prêmio Professor João Crisóstomo Arns – Ano 2019” (Câmara Municipal de Curitiba).

2 ONU. Documento Final da Conferência da Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (2012); disponível em www.nacoesunidas.org

3 www.portalodm.org.br

4 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho; apresentação de Celso Lafer. Rio de Janeiro: Elsevier, 2000, p.145.

5 BRASIL. Constituição da República Federativa do (1988); disponível em www.camara.gov.br

6 BRASIL. Constituição da República Federativa do (1988); disponível em www.camara.gov.br

7 ONU. Rascunho Zero da Rio+20; disponível em www.nacoesunidas.org

8 ONU. Documento Final da Conferência da Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (2012); disponível em www.nacoesunidas.org

 

BIBLIOGRAFIA

 

BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho; apresentação de Celso Lafer. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

BRASIL, Constituição da República Federativa do. (1988), disponível em www.planalto.gov.br

DINIZ, Maria Helena. O estado atual do Biodireito. São Paulo: Saraiva, 2002.

 

IACOMINI, Vanessa. Biodireito e o combate à biopirataria. Curitiba, Juruá, 2009.

MEIRELLES, Jussara Maria Leal de (org). Estudos de Biodireito. Curitiba: Genesis, 2004.

PROCÓPIO, Argemiro. Subdesenvolvimento sustentável. Curitiba: Juruá, 2009.

RODRIGUES, Daniele Tetü. O Direito e os animais. Curitiba: Juruá, 2003.

SÁ, Maria de Fátima Freire de (org). Biodireito. Belo Horizonte: Del Rey, 2002.

SANTOS, Maria Celeste Cordeiro dos. O equilíbrio do pêndulo: a Bioética e a Lei. São Paulo: Cone, 1998.

SCHWARTZ, Germano. Direito à saúde. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2001.

SILVA, Christian Luiz da e Mendes, Judas Tadeu Grassi (orgs). Reflexões sobre o desenvolvimento sustentável: agentes e interações sob a ótica multidisciplinar. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.

TAVARES, Juarez. A dignidade humana. São Paulo: RT, 2008.

VIEIRA, Tereza Rodrigues. Bioética e Direito. São Paulo: Jurídica Brasileira, 1999.

 

Sites:

 www.bioetica.catedraunesco.unb.br

www.orbis.org.br

www.portalodm.org.br

www.revistafocosocial.com.br

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