domingo, 15 de setembro de 2002

Ética Acadêmica

Por Maria da Glória Colucci
A Ética é, sem dúvida, a ciência da pós-modernidade, embora, sabidamente, tão antiga quanto as primeiras inquietações filosóficas (Sócrates, Platão e Aristóteles). Hoje, em suas particularizações, revelam-se os princípios éticos como protetivos da vida (Bioética), dos meios de comunicação (Internética), da práxis política, econômica e social, dentre outros.A “redescoberta” da Ética é, por si mesma, sintoma da desorientação social, motivada pela quebra dos valores religiosos, familiares e morais, substituídos pelos “ismos”, típicos da sociedade globalizada (capitalismo, materialismo, protecionismo, individualismo etc). Nos meios acadêmicos os princípios éticos não foram esquecidos, embora haja um inegável arrefecimento, posto que é dever das instituições, professores e alunos implementarem juntos os valores éticos que alicerçarão a personalidade dos condutores da sociedade do amanhã. Há, portanto, uma ética acadêmica, cujos desdobramentos se põem logo à vista, conforme se trate das instituições, ou dos seus integrantes, sendo todos direcionados pelos mesmos princípios. No entanto, nas instituições superiores, públicas ou privadas, nem sempre a condução das questões acadêmicas se faz de modo a promover a dignidade do professor, sujeitando-o, por vezes, a exigências descabidas, que o desestimulam a aperfeiçoar-se como profissional e pessoa. As aviltantes remunerações, o excesso de carga horária, o grande número de alunos por turma, decisões arbitrárias incompatíveis com a liberdade de cátedra, são exemplos de desestímulos. Por outro lado, a falta de assiduidade, a impontualidade e o descompromisso com os conteúdos programáticos são meros reflexos da desmotivação do professor. A percepção desses sintomas pelas Instituições falará mais alto e trará melhores resultados, do que eventuais penalidades. O ser humano é movido a estímulo, regra da qual o magistério não foge. Aos professores é desnecessário frisar a necessidade de servirem de exemplo na sua conduta pública para os seus alunos e dignificarem em todos os seus atos a instituição da qual participam. Não os expondo à execração pública por incontinências verbais ou comportamentais. O professor, quer queira ou não, é um modelo (bom ou mau) para seus alunos. Espécie de referencial humano e profissional. Sua responsabilidade ética transcende os meios acadêmicos. Dos acadêmicos são cobradas mensalidades elevadas nas Instituições privadas, sem o correlato retorno, ou, em pertencendo a instituição públicas, conquistam vagas mediante grande esforço competitivo e nem sempre encontram condições materiais favoráveis, dada a escassez de recursos e pessoal. Espera-se que procedam com dedicação e probidade na execução das tarefas escolares. É, justamente, nesse ponto, que entram desvios de conduta, como a cópia de trabalhos, “cola” durante as provas, faltas às aulas com desculpas inconsistentes, permanência em bares e lanchonetes próximos à Instituição, durante os horários de aula etc. O futuro profissional começa a modelar a sua conduta nos bancos escolares, antevendo-se o tipo de operador do Direito que será... Por fim, constata-se uma tendência geral à massificação do conhecimento, em que a formação acadêmica mais se assemelha a um “mercado persa”, com uma espécie de “leilão” de vagas, em detrimento da qualidade. Aspira-se que o poder público, que vive a braços com questões de malversação de recursos, tome a dianteira na solução dos impasses acadêmicos. Há de se ressaltar, todavia, que a questão é muito mais ética do que financeira, administrativa, ou de qualquer outra índole, porque a prioridade não tem sido o ser humano, nas eventuais “avaliações institucionais”, visto que o crivo utilizado nem sempre reflete as reais deficiências, já que por “baixo dos panos” há muita coisa que não aparece em uma rápida avaliação dos “olheiros visitantes...”.
Publicado em: 15/09/2002

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