quinta-feira, 7 de maio de 2009

A Mídia e a Informação em Biociências*

Por Maria da Glória Colucci
Os avanços das biociências, associados à velocidade dos meios de comunicação, têm produzido um volume crescente de informações, nem sempre confiáveis, devido a uma diversidade de fatores, dentre os quais, as fontes utilizadas e a fidelidade às opiniões emitidas.
Transformar informações em conhecimento exige não só preparo científico-técnico de quem as redige, dá uma entrevista ou gera uma notícia, mas, respeitar o disposto no art. 5º, XIV da Constituição da República Federativa do Brasil, que assegura a todos acesso à informação, não a qualquer informação, mas, verdadeira...
Causa espanto ao observador atento a relativa freqüência com que “desmentidos” se seguem a notícias, entrevistas, reportagens, etc, causados pelo descompasso entre os fatos, dados ou opiniões divulgados e o que, efetivamente, deveria ter sido veiculado.
O cidadão-leitor, ouvinte ou expectador não deve receber informações truncadas ou mesmo manipuladas, exigindo-se esforço conjunto da comunidade científica aliada às empresas de comunicação do País e ao Poder Público, para que a opinião pública tenha acesso às conquistas das biociências em linguagem clara, compatível com o nível leigo de compreensão.
Assim, o dever do profissional de imprensa, rádio ou televisão, se volta, primordialmente, para o binômio atualidade e veracidade das informações. Quanto à atualidade, sem dúvida, não parece ser um problema, devido à alta tecnologia dos sistemas e à velocidade com que se processam os dados. O desafio reside no conteúdo do texto, linguagem utilizada e fontes geradoras da informação, além da seriedade de quem colige, transmite, redige ou é chamado a opinar sobre alguma matéria de interesse público.
Nos últimos tempos surgiu, com viés de modernidade, o que se tem denominado de “jornalismo científico”, ou seja, desenvolvido por profissionais, altamente qualificados nas mais diferentes áreas da ciência e tecnologia, que respeitem o rigor, objetividade e princípios próprios de cada área do conhecimento.
Pode-se enumerar, à guisa de exemplos, jornalismo em Economia, Política, História, Artes, Informática, Medicina, Direito, etc, com destaque para a análise das questões referentes às biociências.
Neste sentido, as conquistas da Genética reclamam crescente zelo na divulgação de resultados de pesquisas, visto que assuntos como células-tronco, descarte de embriões excedentários, clonagem reprodutiva ou terapêutica, transplantes de órgãos, comercialização de material genético humano, etc, cativam a opinião pública, garantindo manchetes e aumentando a vendagem de jornais, revistas, dvd’s, etc. Por estas e outras razões, nem sempre é feita a necessária triagem quanto à natureza científica e técnica das informações levadas a público, gerando inegáveis distorções e expectativas infundadas à sociedade.
Os efeitos negativos desta prática podem ser constatados quando da votação de leis polêmicas, como a Lei nº. 11.105/05, de Biossegurança, colocando em conflito setores formadores da opinião pública, nem sempre traduzindo a realidade dos fatos. A Lei nº. 11.105/05, ao liberar a pesquisa, o cultivo, o armazenamento, a comercialização, o consumo, a importação e a exportação de produtos transgênicos, regulando, também, a utilização de embriões humanos em pesquisa, desde que inviáveis e com consentimento dos pais; proibindo a clonagem, dentre outras questões desafiadoras, serve de exemplo para a necessidade de maior cuidado com a informação passada à opinião pública pela mídia.
Igualmente, decisões judiciais quanto ao abortamento de anencéfalos, estupro, pedofilia, etc, de teor notadamente médico-legal ou ético-social, causam comoção pública em grande parte fruto de informações distorcidas.
Espera-se que, pelo menos nos setores esclarecidos da mídia, que a seleção das matérias veiculadas passe por rigoroso critério de verdade deixando-se de lado o sensacionalismo tão ao gosto dos tablóides...
Uma sociedade informada pressupõe que os segmentos responsáveis pela comunicação midiática no País tenham consciência de sua importância e direta contribuição na formação de novas mentalidades, ao lado da Escola e da Universidade.
* Trecho de palestra feita aos alunos do curso de Jornalismo da UNICENP, em 23/05/07, como parte dos Grandes Debates da Rede Teia.

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