DIA INTERNACIONAL DA MULHER (8 DE MARÇO):
EMpoderamento Feminino a Partir dos Papéis Sociais (ODS 5)
Maria da Glória Colucci[1]
1
Introdução
Os
contornos culturais da sexualidade humana se revelam de múltiplas formas, a
começar da distribuição dos papéis sociais destinados a homens e mulheres. Por
outro lado, ao longo dos séculos foram sendo construídas novas formas de
interação social, deslocando-se algumas atribuições das mulheres para os
homens, como a atenção e cuidado com os filhos.
No entanto, o tempo incumbiu-se de
dar aos homens, no ambiente doméstico e no trabalho, as mais importantes
tarefas ou status, sempre de mando, chefia ou poder decisório
Verifica-se, ainda hoje, este fato
no predomínio das lideranças masculinas em todas as áreas, sobretudo, nas
ciências, política e religião. Quanto aos saberes especulativos, que demandam
raciocínio investigativo, entendeu-se que os homens seriam mais aptos, enquanto
às mulheres se reservaram tarefas mais simples, condizentes com seu nível de
“inteligência inferior” ao do homem.
Assim, enquanto os homens
fortaleceram sua imagem com a experiência dos negócios e a guerra, entendida
também como os embates econômicos, políticos e familiares, deu-se às mulheres
um papel secundário, submisso, recatado, discreto.
Estes estereótipos são especiais
“rótulos”, criados pelos grupos sociais em relação a pessoas, instituições e
fatos, com significado, na maioria das vezes, pejorativo, dúbio ou veladamente
depreciativo.
A sexualidade humana não escapa a
esta tendência, refletindo ideologias, crenças, valores, sentimentos, tradições
etc, de uma dada época e lugar.
Destarte, na cultura de um povo
estão enraizados os standards, sob diversas formas, que se revelam na
moda, na linguagem, no gestual e, sem dúvida, nos papéis desempenhados no
cenário social. São falsamente justificadas as diferenças a partir dos
temperamentos e da índole mais acomodada das mulheres e mais aguerrida dos
homens.
Os papéis, por sua vez, imprimem a ambos
– homens e mulheres – diversidade de importância social, olvidando-se que a
atual e vigente Constituição (1988), no art. 5º, I prescreve que: “homens e
mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição”.[2]
2
Invisibilidade Social dA Mulher
Por longos séculos, a mulher viveu à
sombra dos feitos de seus maridos, “donos” ou “chefes” sem que tivesse
liberdade de expor seu querer, suas necessidades, seus sonhos.
Por
sua vez, os papéis distribuíram as funções nos ambientes frequentados por
ambos, reservando-se às mulheres as tarefas menos nobres, e aos homens o mundo,
o domínio e as honrarias...
Alguns padrões se fizeram notados,
construídos ao longo de séculos, priorizando certas “qualidades” femininas e
masculinas. Embora retratando a realidade do universo vivenciando por homens e
mulheres, a vulnerabilidade feminina é ressaltada em relação aos homens. Assim,
as mulheres são mais sensíveis; mais cuidadosas; porém menos inteligentes; mais
inseguras e mais falantes; em contrapartida, os homens são mais racionais; mais
seguros; mais reflexivos e mais equilibrados
Decorreu deste fato
que as lideranças ficaram com os homens e às mulheres coube a subserviência e a
condição de subordinação no lar e no trabalho.
No Brasil, em obra
pioneira, João Batista Cascudo Rodrigues, traz à lembrança as conquistas
jurídicas da mulher, em palavras do senador Mauro Benevides, à época presidente
do Senado Federal:
Como é
notório, somente após a Revolução de 1930, com o Código de 1932, e em termos
constitucionais, com a Carta de 1934, o voto passa a ser exercitável pela
mulher. A simetrização dos sexos, aliás, vem estampada na largueza do inciso I
do art. 133 da Constituição de 1934:
”Todos são
iguais perante a lei. Não haverá privilégios, nem distinções, por motivo de
nascimento, sexo, raça, profissões próprias ou dos pais, classe social,
riqueza, crenças religiosas ou ideias políticas”.[3]
No Estatuto da Mulher
Casada (Lei nº 4.121, de 27 de agosto de 1962), houve o reconhecimento “das
obrigações equitativas para a subsistência do lar”.[4]
A natureza própria da
mulher, que não se confunde com os atributos e habilidades do homem, deve ser
respeitada, posto que juntos podem (e devem) construir uma sociedade melhor.
Célio Borja, então
Ministro da Justiça, ressalta que se verificava, ao final do século XX, grandes
mudanças na questão feminina, com uma nova consciência da mulher, quanto ao seu
papel e identidade:
Sem
amesquinhar outros temas, nem esquecer o enorme potencial transformador que têm
as descobertas científicas e tecnológicas, de par com avanços da Antropologia e
da Psicologia, acredito que a questão da mulher é a mais importante deste fim
do século, porque está associada à evolução da consciência moral da humanidade.[5]
Em 1791, Olympes de
Gouges teve a ousadia de publicar a famosa “Declaração de Direitos da Mulher e
da Cidadã”, o que lhe custou a vida, porque foi guilhotinada pelos mesmos que
propunham a “liberdade, igualdade e fraternidade” de todos perante a lei.[6]
O reconhecimento da
igualdade formal da mulher perante a lei foi o primeiro passo para a superação
dos obstáculos preconceituosos para seu ingresso no ambiente político.
Na Inglaterra (1919)
foi eleita para a Câmara dos Comuns, em eleição histórica, Lady Astor, e lá
permaneceu por 25 longos anos.[7]
Ao redor do mundo, aos
poucos, as mulheres alcançaram sua emancipação política pelo voto.
No Brasil, a longa luta
pela conquista dos direitos civis e políticos deu-se entre marchas e
contramarchas, até à conquista do direito de votar pelas mulheres em 1932.
Apesar dos avanços, muitos
obstáculos permanecem e não foram superados, porque os papéis, que distribuem as
funções nos ambientes sociais, ainda discriminam e diminuem a importância da
mulher no trabalho, na família e na sociedade
Da mesma forma que no
passado mulheres lutaram para alcançar espaço e reconhecimento social e
político, ainda remanescem atos de violência e domínio masculino, haja vista o
aumento dos feminicídios.
3 Considerações finais
Na Agenda 2030 (ONU),
a luta das mulheres pela conquista do respeito perante a lei e a sociedade é
uma questão contemplada no ODS 5. Muitas razões podem ser apontadas para o
enfrentamento quase que diário, tanto nos espaços públicos, quanto privados,
pela igualdade de tratamento, de oportunidades e de salários.
Uma das inegáveis
vitórias feministas é evidenciada pela superação do distanciamento cultural,
existente entre homens e mulheres, uma vez que sua faixa de escolaridade, em
nível superior, se ampliou de tal forma que, hoje, as mulheres não se
contentam, apenas, com a graduação, mas buscam uma (ou mais) pós-graduações.
Quanto à remuneração
do trabalho feminino, a mídia está constantemente, alertando para as indevidas
(e injustas) diferenças salariais, resquícios de um passado em que o labor
feminino foi menosprezado como menos “digno” ou “inferior”. Mesmo nas
atividades em empresas, indústrias ou no serviço doméstico, cabem-lhe setores
como limpeza, cuidado com doentes e idosos, secretariado etc.
A redução de filhos,
mediante planejamento familiar, deu às mulheres maior independência
profissional e financeira, conferindo-lhe autonomia para decidir quando, onde e
com quem constituir uma família, já que conquistou liberdade sobre o próprio
corpo. Informações sobre sexualidade, higiene e gestação, além de métodos
contraceptivos, conferem às meninas e adolescentes maiores precauções nas
doenças sexualmente transmissíveis.
O esclarecimento quanto aos seus direitos e
deveres, legalmente previstos, lhes abriu portas e prossegue condicionando suas
decisões em questões econômicas e profissionais, não precisando ter autorização
do marido para trabalhar, fazer transações em bancos ou firmar um contrato
comercial
Sua participação
política, ao votar e ser votada, lhes conferiu condições de ser até Presidente
da República, como aconteceu com a Sra. Dilma Rousseff. Porém, nos bastidores da política, sabe-se como são usadas
através das quotas partidárias, para fins ilícitos, com desvio de recursos.
A Organização das Nações Unidas (ONU) em sua Agenda 2030, como
já citado, elencou dentre os 17 ODS – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
– o de nº 5, que é necessário “Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas
as mulheres e meninas”.[8]
REFERÊNCIAS
[1] Advogada. Especialista em Filosofia do Direito (PUC-Pr).
Mestre em Direito Público (UFPR). Professora aposentada da UFPr. Professora
titular de Teoria do Direito (UNICURITIBA). Orientadora do Grupo de Pesquisas
em Biodireito e Bioética – Jus Vitae.
Membro do Instituto dos Advogados do Paraná (IAP). Membro da Sociedade
Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Membro da Comissão do Pacto
Global (OAB-Pr). Membro da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira
Jurídica (ABMCJ-Pr). Membro do Movimento Nacional ODS (ONU, Pr). Membro da
Academia Virtual Internacional de Poesia, Arte e Filosofia- AVIPAF. Membro do
Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do UNICURITIBA. Escritora e
poetisa, com vários prêmios em textos jurídicos e poéticos.
[2] BRASIL. Constituição da República Federativa do. 1988.
Disponível em www.planalto.gov.br
[3]
RODRIGUES. João Batista Cascudo. A Mulher
Brasileira: Direitos Políticos e Civis. 4 ed. Brasília: Projeto Editorial,
2003, p. 29.
[4] BRASIL. Estatuto da Mulher Casada: Lei n.º 4.121, 27 de
agosto de 1962. Disponível em
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/LEIS/1950-1969/L4121.htm
[5]
BORJA, Célio. Prefácio à 3ª edição; in A
Mulher Brasileira: Direitos Políticos e Civis; João Batista Cascudo Rodrigues,
p. 31. Rodapé (5)
[6]
Ibidem, p. 51
[7]
RODRIGUES, João Batista Cascudo. Op. cit. p. 53 (7)
[8]
ONU. Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento
Sustentável; disponível em www.agenda2030.com.br
Profa. E
ResponderExcluirFui sua aluna em 2010, na UniCuritiba, por um mês.
Desde então, nunca mais voltei para o curso de Direito. Decidi por continuar apenas uma faculdade no curso de Engenharia Civil, na UFPR. Um dos motivos, foi uma das suas falas sobre o ideal vestimento das mulheres. Com apenas 16 anos, fiquei muito revoltada e ofendida na época.
Sempre conto esta história aos meus alunos, obviamente sem citar seu nome.
Hoje em dia sou professora e Doutoranda em Sustentabilidade Urbana na UTFPR (e cansada de ouvir sobre ODS).
Fiquei muito emocionada ao ler seus textos e poemas. Acho que depois de 12 anos, finalmente entendi o motivo do seu conselho.
No fundo, acho que a Senhora é uma verdadeira lutadora e feminista, apenas aprisionada em alguns valores morais e na sua história. Foi o seu conselho para a gente conseguir ser respeitada.
Obrigada por ter aberto as portas para todas nós professoras.
Grande abraço.
Obrigada pelo carinho!! Estarei repassando esta belíssima mensagem para ela. Att Ana (filha)
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