LINGUAGEM E METALINGUAGEM NAS REDES SOCIAIS
Maria da Gloria Colucci [1]
1 Introdução
Pode-se notar, ainda que em análise superficial, que as redes sociais são
reveladoras do crescente adoecimento psíquico e social da população.
Quem, por iniciativa própria ou
profissional, se colocar como observador atento das formas e conteúdos das
redes sociais, vai se dar conta da baixa qualidade do que é postado; não só
ofensivo à gramática (o que é isso?...); mas agressivo e violento aos mais
elementares valores morais ...
Deve-se destacar que não se está
apregoando que a internet deva ser um “livro” de moral e bons costumes, mas,
não deveria descer a níveis tão baixos, degradantes e perversos, como se tem
constatado.
Exemplos aqui não devem (e não serão
dados) para que este texto não se torne um elenco de asneiras, palavrões e
ofensas ao(a) leitor(a), ainda que com finalidade ilustrativa, da “boçalidade”
existente, sobretudo, nos chats de conversas triviais ... Trocas de palavras de
baixo calão, ataques gratuitos às crenças, gostos e opiniões dos que não sabem por
que estão sendo agredidos ...
Crianças, idosos e mulheres são
aviltados com memes, fatos, palavras e reproduções digitais, que humilham
pessoas inocentes, sem qualquer motivo aparente...
A começar pelos conflitos de ordem
política e religiosa, a polarização e a falta de conteúdo verdadeiro (fake news),
predominam, carecendo, por tal motivo, de confiabilidade ...
O “estilo” (se é que se pode afirmar
que existe) é sempre o “nós contra eles”, qual seja, “chutes e pontapés” de
parte à parte. Os conteúdos são delicados, não há dúvidas; mas o modo (forma de
comunicação) é agressivo e desgastante para quem é sério e deseja informação
adequada ...
Não importam os argumentos
utilizados pelos interlocutores, já que “todos” (quase “todos”, com honrosas
exceções), falam para seus seguidores e querem receber muitos likes, sobretudo,
quando monetizados” ...
Para a grande maioria, o que verdadeiramente importa é a “novidade”, a
qualquer custo, mesmo que ofenda a honra, a fama e a dignidade dos infelizes
vitimados em sua vida privada, familiar, profissional, etc. ...
2 Metalinguagem: Para além das Palavras, Memes, FAKES etc.
Entendida a linguagem como instrumento de comunicação, que se dá em
distintas dimensões (níveis) e finalidades; pode-se observar uma crescente
diversificação dos emissores (autores das mensagens) e destinatários
(público-alvo).
Não se deve limitar a linguagem apenas às palavras (signos linguísticos),
mas há uma extensa lista de instrumentos de comunicação, tais como números,
figuras geométricas, algoritmos, cores, símbolos religiosos, gestos etc.
[2]
No conceito de linguagem estão distintas formas de comunicação, mais
comuns, como é o caso das notas musicais, cores de bandeiras, uniformes de
torcidas, clubes, partidos políticos etc.
Sem pretender esgotar, mas, apenas, a título de exemplificação,
poder-se-á chamar à listagem, os níveis de linguagem conhecidos de longa data:
a) erudita: cujos vocábulos não são de
uso comum e frequente, mas que constam dos livros de literatura, em suas formas
mais usuais: poesia e prosa; também denominada clássica;
b) popular: a linguagem corrente é
muito rica, variando de região para região; extremamente pitoresco, criativo,
expressivo, emotivo (passional); dependendo do ânimo das populações, em cada
época e lugar;
c) científica/técnica: são próprias dos
vários saberes, cuja diversificação dispensa maiores comentários; permitindo
que os profissionais se comuniquem; conforme os códigos de interpretação
estabelecidos para suas áreas de conhecimento (vocábulos, números, símbolos,
algoritmos, notas musicais, etc.);
d) vulgar: a expressão vulgar deve ser entendida como o
que se refere ao que é comum, empírico, popular, de senso comum; todavia,
concebida como um “popular grotesco”, tais como, palavrões, gestos obscenos,
símbolos de certos grupos (pichações, etc.); locais onde há drogas à venda,
etc.
Nas conversações diárias, a maioria dos internautas se utilizam da
linguagem popular, ou com mais frequência, da vulgar, em alguns grupos (Dark
Web).
Não vem ao acaso se uma forma de comunicação é melhor do que outra,
depende de quem a usa; refletindo seu ego oculto, suas contradições, seus
valores morais, políticos ou de outra ordem ... O que não se pode tolerar são
as ofensas à dignidade da pessoa humana, princípio de magnitude constitucional
(Art. 1º, III, CF). [3]
3 METALINGUAGEM NAS
REDES SOCIAIS
As “mensagens” expressas nas
diferentes formas de linguagem são estruturadas a partir de uma relação
comunicacional, em que em um dos polos está o orador-emissor (que
transmite o comando, ordem, pedido, convite, ideia, etc.) e, do outro lado, o destinatário
(no caso da internet, certa(s) determinada(s) pessoa(s)).
Ao se examinar as “mensagens”
(orador-destinatário) estão nelas contidos atrativos diversos, tais como: preço
do produto; qualidade, status do comprador, etc.; é o caso dos atrativos aos
consumidores.
Quando, por outro tanto, a linguagem
é política, religiosa, científica, técnica ou filosófica, o que deve direcionar
e atrair os destinatários é a qualidade dos argumentos do orador (emissor).
No entanto, para avaliar o “peso” da
argumentação é preciso que os destinatários tenham compromisso com a “verdade”
do que está sendo afirmado (ou negado), afastando as Fake News. [4]
Neste particular, entram aspectos a
serem considerados no que respeita aos destinatários, dentre eles, a educação
de qualidade, com base na qual poderão “sopesar” o que foi disponibilizado na
internet.
Destarte, devido à falta de “sendo
crítico” dos internautas, em sua grande parte, com, apenas, formação no curso
fundamental ou médio, a verificação (e repetição) das “verdades” digitais é,
quase sempre, negligenciada ...
Por outro lado, a violência contra
mulheres, racismo, xenofobia, etarismo, pedofilia, capacitismo, suicídio, pornografia
etc., grassam nos meios digitais, apesar do repúdio das autoridades e pessoas
de bom senso, que respeitam os direitos individuais e coletivos.
4 CONSIDERAÇÕES
FINAIS
A questão da “verdade” nas redes
sociais é um dos temas mais conflitantes e polêmicos, porque envolve múltiplos
aspectos, a começar com a pergunta: verdade de quem, para quem?
As “afirmações” variam conforme os
seus emissores (internautas, seguidores), sejam adeptos deste ou daquele
segmento, partido político, crença religiosa etc. O meio utilizado (linguagem),
igualmente, se diversifica, conforme os tipos precitados (erudita, popular,
científica, técnica, vulgar) sejam utilizados, etc.
Uma vez identificados os emissores (oradores)
e o público-alvo (destinatários), entra em cena o mais desafiante elemento da
situação relacional – o conteúdo, qual seja, “a verdade” que se pretende
comunicar.
Ainda mais instigante se torna o
conteúdo quando, mesmo sendo “verdadeiro”, não deve ser divulgado porque fere a
intimidade ou privacidade de alguém; caso de injúria ou difamação ...
Sem adentrar aos meandros das Tecnologias
Digitais de Informação e Comunicação (TDICs) [5], diante da Inteligência Artificial (IA), o problema da “verdade”,
autenticidade, se torna aflitivo quando se considera a produção
científica/técnica e a feitura dos artigos científicos “maquiados”, cuja
autoria não se pode confirmar ...
No caso dos artigos, textos,
produção científica, como as dissertações, teses e literatura dogmática em
geral, o problema da “verdade” é ainda mais grave, diante da “impossibilidade”
de se chegar às fontes utilizadas pelos autores ... [6]
As bibliotecas digitais oferecem,
por outro lado, valiosas contribuições, desde que seus usuários respeitem
mínimas regras de referências e citações bibliográficas, o que deve ser
ensinado e enfatizado aos pesquisadores.
Talvez, o maior dano sofrido pela
“verdade” nas redes sociais seja representando pelas “interpretações” que a
“galera” lhe costuma dar ...
Pode parecer cômico, mas é trágico,
para quem busca a “verdade”, conviver com tanta mentira, disfarçada de “opinião
pessoal”. Mas, por outro lado, há na Lei Maior a liberdade de opinião, sendo
vedado o anonimato (Art. 5º, IV); devendo, pela análise feita, que o orador
(emissor) se identifique pela autoria, em respeito aos internautas
(público-alvo). [7]
Por outro ângulo, percebe-se que a
sociedade brasileira se distanciou dos valores da família ao postarem, certos
grupos inescrupulosos, vídeos de violência contra crianças, feminicídio,
pedofilia, dentre outras práticas deploráveis.
Também, em relação aos animais,
domésticos ou não, maus tratos, abandono, mutilações, se multiplicam com um
grande número de visualizações.
Há, igualmente, uma atração malévola
em relação à violência intrafamiliar, policial e no trânsito parecem catalisar
muitos internautas nas redes sociais.
Onde entraria a metalinguagem neste
panorama confuso, desordenado, perplexo, do ambiente virtual?
A expressão “metalinguagem” é
utilizada sob muitos aspectos; mas, neste texto, foi utilizada para significar
o que está “oculto” nas “entrelinhas” de uma “mensagem”; que seja “subjacente”
(nos meandros do que está sendo falado ou escrito ...) ou que, ainda que
“expresso”, não é exatamente o que o emissor (orador) está falando ou dizendo
... [8]
Analisando o que se pode denominar
de “metalinguagem” nas redes sociais, nota-se uma espécie de “adoecimento
moral” dos internautas; devido a alguns indicadores;
a) preferência por cenas de violência contra vulneráveis, crianças, idosos,
mulheres e pessoas com deficiência;
b) atração por notícias difamatórias de agentes públicos, políticos,
artistas, jogadores; ou seja, informações distorcidas ou, até mesmo, totalmente
falsas;
c) desrespeito aos direitos autorais, de pesquisadores, artistas, obras
literárias recentes ou não; distorcendo suas mensagens, ou alternando-as,
utilizando-se do famoso “corta e cola”;
d) exposição do corpo humano, em situações de nudez de adultos, adolescente
e crianças, com milhares de “curtidas”; estimulando mais publicações no mesmo
sentido, sobretudo, pelo retorno econômico;
e) vídeos de crimes (Dark Web), praticados por organizações criminosas, ao
matarem seus próprios integrantes ou de outros grupos, etc.
A lista, ainda que superficial, poderá, futuramente, ser acrescida de
outras práticas degradantes dos mínimos princípios de moral no País.
Bibliografia:
BRASIL.
Constituição da República Federativa do (1988). Disponível em:
<www.planalto.gov.br>. Acesso em: 01 jul. 2025.
COLUCCI,
Maria da Glória. Linguagem e Comunicação no Direito. Disponível em: <https://rubicandarascolucci.blogspot.com/?m=1>.
Acesso em: 01 jul. 2025.
COLUCCI,
Maria da Glória. “Verdades Forjadas” na era pós-moderna manipulam a opinião
pública. Disponível em: <https://rubicandarascolucci.blogspot.com/?m=1>.
Acesso em: 01 jul. 2025.
HESSE,
Reinhard. Por uma Filosofia Crítica da Ciência. Goiânia: Ed. da
Universidade Federal de Goiás, 1987.
LYONS,
John. As ideias de Chomsky. Trad. Octanny Silveira da Mota e Leonidas
Hecenberg. São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo: Cultrix, s/data.
Wunsch, Luana
Priscila; ALMEIDA, Siderly do Carmo Dahle de; [org.] EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA:
encurtamento de distâncias na contemporaneidade. Ed. Curitiba-PR, Editora
Bagai, 2022.
Referências
[1] Advogada.
Mestre em Direito Público (UFPr). Especialista em Filosofia do Direito
(PUC-Pr). Professora Adjunta aposentada da UFPr. Professora Titular de Teoria
do Direito (Unicuritiba 1978-2021). Orientadora do Grupo de Pesquisas em
Biodireito e Bioética – Jus Vitae (2001-2021). Membra do Instituto
dos Advogados do Paraná (IAP). Membra da Comissão do Pacto Global (OAB-Pr).
Membra da Comissão de Direito Educacional e Políticas Públicas em Educação da
OAB-Pr (2021-2022) Membra da Comissão de Direito à Cidade (OAB-Pr 2023). Membra
da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica (ABMCJ-Pr). Membra da
Academia Virtual Internacional de Poesia, Arte e Filosofia- AVIPAF. Membra do
Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do Unicuritiba (2018-2021).
“Prêmio Professor João Crisóstomo Arns – Ano 2019” (Câmara Municipal de
Curitiba).3º lugar no Concurso de Poemas e Artes Visuais, promovido pela
Faculdade Panamericana (PR, 2022). *
Adotou-se o feminino “membra” em respeito à diversidade.
[2]
COLUCCI, Maria da Glória. Linguagem e Comunicação
no Direito. Disponível em:
<https://rubicandarascolucci.blogspot.com/?m=1>. Acesso em: 01 jul. 2025.
[3]
BRASIL. Constituição da República Federativa do
(1988). Disponível em: <www.planalto.gov.br>. Acesso em: 01 jul. 2025.
[4]
COLUCCI, Maria da Glória. “Verdades Forjadas” na
era pós-moderna manipulam a opinião pública. Disponível em:
<https://rubicandarascolucci.blogspot.com/?m=1>. Acesso em: 01 jul. 2025.
[5]
EDUCAÇÃO E TECNOLOGIA: encurtamento de distâncias na
contemporaneidade. [org.] Luana Priscila
Wunsch, Siderly do Carmo Dahle de Almeida. - [ed.] - Curitiba-PR, Editora
Bagai, 2022.
[6]
HESSE, Reinhard. Por uma Filosofia Crítica da
Ciência. Goiânia: Ed. da Universidade Federal de Goiás, 1987.
[7]
BRASIL. Constituição da República Federativa do
(1988). Disponível em: <www.planalto.gov.br>. Acesso em: 01 jul. 2025.
[8]
LYONS, John. As ideias de Chomsky. Trad.
Octanny Silveira da Mota e Leonidas Hecenberg. São Paulo: Ed. da Universidade
de São Paulo: Cultrix, s/data.
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