AS “BOAS MULHERES
DA CHINA”: REPENSANDO A VIOLÊNCIA CONTRA
MULHERES E MENINAS
NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO
Maria da Gloria Colucci[1]
1 INTRODUÇÃO
O Direito e sua ciência são
campo fértil para reflexões e pesquisas antropológicas, devido à sua inegável dimensão
humana, marcada por valores e princípios éticos, como a dignidade da pessoa.
Destarte,
o respeito inerente à condição humana deriva de sua essência, que independe de
raça, cor, gênero, crenças, etc, ou de quaisquer diferenças pessoais.
Promover
a educação profissionalizante, artística, técnica ou de outra natureza,
significa abrir portas, com uma visão de futuro, ampliando os horizontes dos
(as) cidadãos (ãs), compartilhando como se deve proceder não só em família, na
escola, na sociedade, etc.
Entenda-se
a educação como um processo de formação, restauração e desenvolvimento da
pessoa ao longo de sua vida, não se limitando, apenas, ao que se entende por
“instrução”, ou seja, acesso ao conhecimento básico, ao letramento, acrescidos
de noções de aritmética, história, geografia, biologia, etc.
Educar
é, antes de tudo, transformar vidas, assinalar novos rumos aos (às) cidadãos
(ãs), desde a infância até ao envelhecimento; destacando suas qualidades,
valores, sentimentos e, se for o caso, reconstruindo suas personalidades.
Sempre
haverá perspectivas de mudanças em uma dada sociedade, se a educação for
acessível a todos. Desta forma, a educação de meninas e mulheres, tendo como
base a igualdade, afastadas as discriminações (preconceitos de gênero -sexismo),
e sua qualificação profissional, é o primeiro e grande passo para o
desenvolvimento de uma dada sociedade.
As
mulheres exercem importante e fundamental papel na educação dos filhos e filhas
e, dependendo do grau de responsabilidade que tenham com a formação moral,
profissional e com os valores das crenças tradicionais, certamente, haverá
esperança para este povo.
Na
obra “AS BOAS MULHERES DA CHINA”, de Xinran; nascida em Pequim, em 1958,
verifica-se quanto uma mulher visionária pode fazer em termos de
conscientização e esclarecimento para a sociedade à qual pertence.[2]
Ressaltando
que ainda hoje são muitos os obstáculos para o empoderamento feminino, devido à
falta de oportunidades para exporem suas experiências de vida, habilidades
artísticas, profissionais ou de outras naturezas.
Em 1999, Xinran trabalhava
no curso noturno da Universidade de Londres, dando aulas sobre temas orientais
e africanos, quando sofreu um assalto e quase perdeu o manuscrito da obra “AS
BOAS MULHERES DA CHINA”, o que a deixou em pânico e consciente da necessidade
de publicá-lo; antes que o perdesse por qualquer motivo.[3]
As histórias narradas na
obra foram coligidas como relatos anônimos, verdadeiros, através de um programa
noturno, denominado “Palavras na Brisa Noturna”, quando Xinran, como
jornalista, procurou dar voz às mulheres chinesas, revelando suas humilhações,
principalmente sexuais e domésticas, espancamentos, castigos, fome, estupros,
etc.[4]
Os relatos foram feitos com
muita cautela e medo, porque o “Partido” punia, se descobrisse as
mulheres-vítimas que acusavam seus maridos, como “provas de comportamento
delinquente das mulheres”; invertendo injustamente a punição, porque estas
mulheres estariam ofendendo “as tradições chinesas, em plena década de 90”. [5]
Para incentivar o debate,
Xinran utilizou-se de perguntas, ou mesmo de provérbios chineses, que
expressavam as tradições chinesas, na sua maioria espelhando opressão e
subserviência das mulheres como alguns exemplos que seguem:
“[...] as boas chinesas são
condicionadas a se comportar de maneira meiga e dócil, e levam esse
comportamento para a cama”. [6]
“[...] o homem quer uma
mulher que seja esposa virtuosa, boa mãe e que possa fazer todo o trabalho
doméstico como uma empregada”. [7]
Em suas práticas rotineiras,
os homens possuem amantes, que são apresentadas como “acompanhantes”,
“secretárias particulares”, devendo ser “inteligentes, instruídas, discretas e
belas”; e o fato de sustentá-las é prova de status.[8]
Segundo a tradição, “para o
homem é conveniente ter quatro mulheres, assim como é conveniente que o bule de
chá sirva quatro xícaras”(!!!)
Em sua evolução cultural,
aos poucos mulheres chinesas alcançaram alguns postos de importância, mas
sempre submissas aos mandos dos seus maridos, ao mesmo tempo de seus corpos,
vontades e mentes.
2 REVOLUÇÃO CULTURAL (CHINA, SEC. XX)
Xinran
relata na obra que a temida Revolução Cultural, na década de 60, teve seu
período mais negro, numa tentativa de retornar antigas tradições, costumes,
mediante uma reeducação forçada, marcada pela perseguição, eliminação de
valores, pensamentos e ideias ocidentais.
Alguns
padrões e estigmas que oprimiram as mulheres entre 1966-1976, o período mais
negro da Revolução Cultural, foram retomados da sociedade matriarcal de um
passado remoto, como os seguintes:
[...] a posição da mulher na
China sempre fora a de nível mais baixo. Ela era classificada como objeto, como
parte da propriedade, dividida como a comida, as ferramentas e as armas.[9]
E
prosseguiu Xinran sobre a condição da mulher chinesa, com base em suas
tradições:
Mais tarde foi autorizada a
ingressar no mundo do homem, mas só podia existir aos pés dele – dependendo
inteiramente da bondade ou da crueldade de um homem. [10]
Somente
em 1983 foi declarada a liberdade religiosa na China. Predominam o budismo,
taoísmo e o cristianismo, ao lado de outras crenças.
Na
década de 70, as mulheres obedeciam às três submissões e quatro virtudes, adiante
citadas. Era impensável que uma mulher tivesse acesso à educação, porém, a
autora teve uma formação diferente, sendo-lhe dada liberdade de escolher sua
profissão; conforme esclarece:
Uma mulher estudar, ler e
escrever, discutir assuntos de Estado como um homem, e até dar conselhos a
homens, era heresia para a maioria dos chineses na época. [11]
Quanto
às demais mulheres, mantinham as tradições nas quais foram educadas na família,
não podendo “por os pés fora de casa”:
Na época, as mulheres
obedeciam às três submissões e quatro virtudes: submissão ao pai, em seguida ao
marido e, depois da morte deste, ao filho. As virtudes eram fidelidade, encanto
físico, decoro na fala e nos atos, e diligência no trabalho doméstico[12]
Por
influência do Partido, muitos homens abandonaram suas famílias e filhos, se
afastaram de seus lares; o que se seu por visão política distorcida sobre a
liberdade das pessoas:
Em 1950, depois que o
Partido Comunista assumiu o controle sobre a maior parte da China, o novo
governo se viu diante do problema de decidir o que fazer com as primeiras
esposas de seus líderes. [13]
Tal
fato se deu porque o governo liberou os costumes, porém as antigas esposas
ficaram desamparadas, seguindo uma trajetória de vida de tristeza e abandono,
ficando com uma pensão vitalícia do governo, porque não tinham “os encantos”
das novas esposas:
Essas mulheres analfabetas,
que não sabiam ler nem os ideogramas mais simples, só entendiam uma coisa:
pertenciam aos homens que lhes tinham levantado o véu e que as transformaram de
meninas em esposas. [14]
Entre
os anos de 1945 e 1985 muitas famílias se separam e nunca mais vieram a se
reunir, em um ambiente de frieza, em que os pais e filhos não se abraçavam ou
beijavam, porque, segundo a tradição chinesa, não era um comportamento
aceitável. [15]
As
pessoas eram educadas para não demonstrarem alegria com a liberdade, como
parecia que o Partido lhes estava dando; do mesmo modo que escondiam o
sofrimento com a morte dos amigos, parentes ou a perda da família; para evitar
conflitos com os governantes, revelando desagrado com as iniciativas políticas
adotadas. [16]
Muitos
aspectos da obra revelam o desprezo, abandono e desvalorização dispensados às
mulheres, cuja felicidade e busca do afeto, e de formação de uma família
baseada no amor, eram obrigadas a descartar ...
A
violência física e psíquica entre quatro paredes eram uma constante, mas
seguindo as tradições, as mulheres guardavam silêncio, em benefício da própria
família e para evitar maiores contratempos para si mesmas se falassem a
verdade.
Bibliotecas
não eram comuns até porque o conhecimento que os livros continham podia
distorcer os entendimentos; conforme um relato da autora Xinran, ao encontrar
uma biblioteca escondida em uma aldeia remota, guardada a “sete chaves” por um
velho professor:
O professor contou que a
biblioteca era um segredo que ele pretendia deixar para as gerações futuras.
Por mais revolucionárias que sejam, disse, as pessoas não podem viver sem
livros. Sem livros não compreenderíamos o mundo; sem livros não poderíamos nos
desenvolver; sem livros, a natureza não pode servir à humanidade. Sabia que
aqueles eram exatamente os livros que a Revolução Cultural estava destruindo. [17]
Estilos
de vida diferentes, valores, tradições, liberdade profissional, igualdade entre
homens e mulheres; acesso ao saber formal em escolas e universidades, dentre
outros direitos, tornariam os chineses “ocidentalizados”, o que era
indispensável em tempos de Revolução Cultural (Século XX, 2ª metade).
Muitas
perguntas são feitas pela autora, mas algumas parecem, aos olhos ocidentais,
absurdas, como a seguinte: “Quanto valia, exatamente, a vida de uma mulher na
China?” [18]
Partindo
desta análise, Xinran saiu em busca de outras respostas, deparando-se com o
medo, desconfiança e silêncio das próprias mulheres; incultas, submissas e
acostumadas com os maus tratos e desprezos de seus maridos, filhos e parentes.
No
relato sobre a “Colina dos Gritos”, a autora traz descrições chocantes sobre a
vida das famílias, em que mulheres e meninas são “compartilhadas” entre vários
homens ... (“Ninguém sente compaixão alguma pelas esposas compartilhadas; para
eles, a existência das mulheres é justificada pela sua utilidade”). [19]
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quando
a Agenda 2030 (ONU, 2015), no ODS 5 elege como Objetivo promover a “igualdade
de gênero” e favorecer, por todos os meios o “empoderamento das mulheres e
meninas” há vários motivos, mas, sem dúvida, é o reconhecimento do grande
“potencial humano” que elas representam no desenvolvimento sustentável. [20]
Proclamam
que a “igualdade de acesso à educação de qualidade, aos recursos econômicos e à
participação política” são fundamentais ao exercício pleno dos direitos humanos
e às oportunidades. [21]
Considera
que houve (e ainda há) um “hiato de gênero”, nos âmbitos global, regional e
nacional, impedindo que mulheres e meninas sejam tratadas em igualdade de
oportunidades, excluídas do acesso à educação, trabalho e liberdade de vida,
afeto e profissão.
Igualmente,
o Pacto Global (ONU, 2000), em um de seus princípios (6), expressamente
conclama as empresas a “Estimular práticas que eliminem qualquer tipo de
discriminação no emprego”. [22]
Em
suas propostas de elucidação das práticas chinesas, nem sempre Xinran tenha
recebido a merecida aprovação, ao contrário foi perseguida e criticada, porque
enfrentou tradições arraigadas, embasadas em extrema maldade e desprezo pelas
mulheres e meninas. Todavia, houve reconhecimento de suas contribuições ao
bem-estar feminino, quando o Departamento de Segurança Pública lhe conferiu o
prêmio “Flor da Força Policial”. [23]
Atualmente,
com espanto e repúdio ainda se pode constatar muitas destas práticas
desprezíveis ao redor do mundo e, no Brasil, o grande número de feminicídios é
uma evidência indiscutível deste fato.
Pela
educação e políticas públicas de combate à discriminação de toda ordem contra
mulheres e meninas, a sociedade brasileira poderá reverter este quadro de
injustiça, violência e desapreço por qualquer pessoa, não apenas do sexo
feminino.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
OAB-PR.
Cartilha do Pacto Global. Comissão da Mulher Advogada da OAB/PR, 2017.
ONU. Transformando Nosso Mundo: A Agenda
2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: <www.undp.org>.
Acesso em: 01 mar. 2025.
XINRAN.
As Boas Mulheres da China: vozes ocultas. Trad. Manoel Paulo Ferreira.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
REFERÊNCIAS
[1] Advogada. Mestre em Direito Público (UFPr). Especialista em
Filosofia do Direito (PUC-Pr). Professora Adjunta aposentada da UFPr.
Professora Titular de Teoria do Direito (Unicuritiba 1978-2021). Orientadora do
Grupo de Pesquisas em Biodireito e Bioética – Jus Vitae (2001-2021).
Membra do Instituto dos Advogados do Paraná (IAP). Membra da Comissão do Pacto
Global (OAB-Pr). Membra da Comissão de Direito Educacional e Políticas Públicas
em Educação da OAB-Pr (2021-2022) Membra da Comissão de Direito à Cidade
(OAB-Pr 2023). Membra da Associação Brasileira de Mulheres de Carreira Jurídica
(ABMCJ-Pr). Membra da Academia Virtual Internacional de Poesia, Arte e
Filosofia- AVIPAF. Membra do Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos do
Unicuritiba (2018-2021). “Prêmio Professor João Crisóstomo Arns – Ano 2019”
(Câmara Municipal de Curitiba).3º lugar no Concurso de Poemas e Artes Visuais,
promovido pela Faculdade Panamericana (PR, 2022). * Adotou-se o feminino “membra”
em respeito à diversidade.
[2] XINRAN.
As Boas Mulheres da China: vozes ocultas. Trad. Manoel Paulo Ferreira.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
[3] XINRAN,
op. cit., p. 9.
[4] XINRAN,
op. cit., p. 66.
[5] XINRAN,
op. cit., p. 15.
[6] XINRAN,
op. cit., p. 50.
[7]
XINRAN, op. cit., p. 51.
[8] Idem.
[9] XINRAN,
op. cit., p. 60.
[10] Idem.
[11] XINRAN,
op. cit., p. 123.
[12] Idem.
[13] XINRAN,
op. cit., p.129.
[14] Idem.
[15]XINRAN,
op. cit., p.131.
[16] XINRAN,
op. cit., p.133.
[17]XINRAN,
op. cit., p.189.
[18] XINRAN,
op. cit., p.15.
[19]XINRAN,
op. cit., p.242.
[20] ONU.
Transformando Nosso Mundo: A Agenda
2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: <www.undp.org>.
[21] Idem.
[22] OAB-PR.
Cartilha do Pacto Global. Comissão da Mulher Advogada da OAB/PR, 2017.
[23] XINRAN,
op. cit., p.179.
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