segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

 

AS “BOAS MULHERES DA CHINA”: REPENSANDO A VIOLÊNCIA CONTRA

MULHERES E MENINAS NA PERSPECTIVA DA EDUCAÇÃO

 

 

Maria da Gloria Colucci[1]

 

1 INTRODUÇÃO

 

            O Direito e sua ciência são campo fértil para reflexões e pesquisas antropológicas, devido à sua inegável dimensão humana, marcada por valores e princípios éticos, como a dignidade da pessoa.

            Destarte, o respeito inerente à condição humana deriva de sua essência, que independe de raça, cor, gênero, crenças, etc, ou de quaisquer diferenças pessoais.

            Promover a educação profissionalizante, artística, técnica ou de outra natureza, significa abrir portas, com uma visão de futuro, ampliando os horizontes dos (as) cidadãos (ãs), compartilhando como se deve proceder não só em família, na escola, na sociedade, etc.

            Entenda-se a educação como um processo de formação, restauração e desenvolvimento da pessoa ao longo de sua vida, não se limitando, apenas, ao que se entende por “instrução”, ou seja, acesso ao conhecimento básico, ao letramento, acrescidos de noções de aritmética, história, geografia, biologia, etc.

            Educar é, antes de tudo, transformar vidas, assinalar novos rumos aos (às) cidadãos (ãs), desde a infância até ao envelhecimento; destacando suas qualidades, valores, sentimentos e, se for o caso, reconstruindo suas personalidades.

            Sempre haverá perspectivas de mudanças em uma dada sociedade, se a educação for acessível a todos. Desta forma, a educação de meninas e mulheres, tendo como base a igualdade, afastadas as discriminações (preconceitos de gênero -sexismo), e sua qualificação profissional, é o primeiro e grande passo para o desenvolvimento de uma dada sociedade.

            As mulheres exercem importante e fundamental papel na educação dos filhos e filhas e, dependendo do grau de responsabilidade que tenham com a formação moral, profissional e com os valores das crenças tradicionais, certamente, haverá esperança para este povo.

            Na obra “AS BOAS MULHERES DA CHINA”, de Xinran; nascida em Pequim, em 1958, verifica-se quanto uma mulher visionária pode fazer em termos de conscientização e esclarecimento para a sociedade à qual pertence.[2]  

            Ressaltando que ainda hoje são muitos os obstáculos para o empoderamento feminino, devido à falta de oportunidades para exporem suas experiências de vida, habilidades artísticas, profissionais ou de outras naturezas.

Em 1999, Xinran trabalhava no curso noturno da Universidade de Londres, dando aulas sobre temas orientais e africanos, quando sofreu um assalto e quase perdeu o manuscrito da obra “AS BOAS MULHERES DA CHINA”, o que a deixou em pânico e consciente da necessidade de publicá-lo; antes que o perdesse por qualquer motivo.[3]

As histórias narradas na obra foram coligidas como relatos anônimos, verdadeiros, através de um programa noturno, denominado “Palavras na Brisa Noturna”, quando Xinran, como jornalista, procurou dar voz às mulheres chinesas, revelando suas humilhações, principalmente sexuais e domésticas, espancamentos, castigos, fome, estupros, etc.[4]

Os relatos foram feitos com muita cautela e medo, porque o “Partido” punia, se descobrisse as mulheres-vítimas que acusavam seus maridos, como “provas de comportamento delinquente das mulheres”; invertendo injustamente a punição, porque estas mulheres estariam ofendendo “as tradições chinesas, em plena década de 90”. [5]

Para incentivar o debate, Xinran utilizou-se de perguntas, ou mesmo de provérbios chineses, que expressavam as tradições chinesas, na sua maioria espelhando opressão e subserviência das mulheres como alguns exemplos que seguem:

 

“[...] as boas chinesas são condicionadas a se comportar de maneira meiga e dócil, e levam esse comportamento para a cama”. [6]

 

“[...] o homem quer uma mulher que seja esposa virtuosa, boa mãe e que possa fazer todo o trabalho doméstico como uma empregada”. [7]

 

Em suas práticas rotineiras, os homens possuem amantes, que são apresentadas como “acompanhantes”, “secretárias particulares”, devendo ser “inteligentes, instruídas, discretas e belas”; e o fato de sustentá-las é prova de status.[8]

Segundo a tradição, “para o homem é conveniente ter quatro mulheres, assim como é conveniente que o bule de chá sirva quatro xícaras”(!!!)

Em sua evolução cultural, aos poucos mulheres chinesas alcançaram alguns postos de importância, mas sempre submissas aos mandos dos seus maridos, ao mesmo tempo de seus corpos, vontades e mentes.

 

2 REVOLUÇÃO CULTURAL (CHINA, SEC. XX)

 

            Xinran relata na obra que a temida Revolução Cultural, na década de 60, teve seu período mais negro, numa tentativa de retornar antigas tradições, costumes, mediante uma reeducação forçada, marcada pela perseguição, eliminação de valores, pensamentos e ideias ocidentais.

            Alguns padrões e estigmas que oprimiram as mulheres entre 1966-1976, o período mais negro da Revolução Cultural, foram retomados da sociedade matriarcal de um passado remoto, como os seguintes:

 

[...] a posição da mulher na China sempre fora a de nível mais baixo. Ela era classificada como objeto, como parte da propriedade, dividida como a comida, as ferramentas e as armas.[9]

 

            E prosseguiu Xinran sobre a condição da mulher chinesa, com base em suas tradições:

           

Mais tarde foi autorizada a ingressar no mundo do homem, mas só podia existir aos pés dele – dependendo inteiramente da bondade ou da crueldade de um homem. [10]

               

            Somente em 1983 foi declarada a liberdade religiosa na China. Predominam o budismo, taoísmo e o cristianismo, ao lado de outras crenças.

            Na década de 70, as mulheres obedeciam às três submissões e quatro virtudes, adiante citadas. Era impensável que uma mulher tivesse acesso à educação, porém, a autora teve uma formação diferente, sendo-lhe dada liberdade de escolher sua profissão; conforme esclarece:

 

Uma mulher estudar, ler e escrever, discutir assuntos de Estado como um homem, e até dar conselhos a homens, era heresia para a maioria dos chineses na época. [11]

 

            Quanto às demais mulheres, mantinham as tradições nas quais foram educadas na família, não podendo “por os pés fora de casa”:

 

Na época, as mulheres obedeciam às três submissões e quatro virtudes: submissão ao pai, em seguida ao marido e, depois da morte deste, ao filho. As virtudes eram fidelidade, encanto físico, decoro na fala e nos atos, e diligência no trabalho doméstico[12]

 

            Por influência do Partido, muitos homens abandonaram suas famílias e filhos, se afastaram de seus lares; o que se seu por visão política distorcida sobre a liberdade das pessoas:

 

Em 1950, depois que o Partido Comunista assumiu o controle sobre a maior parte da China, o novo governo se viu diante do problema de decidir o que fazer com as primeiras esposas de seus líderes. [13]

 

            Tal fato se deu porque o governo liberou os costumes, porém as antigas esposas ficaram desamparadas, seguindo uma trajetória de vida de tristeza e abandono, ficando com uma pensão vitalícia do governo, porque não tinham “os encantos” das novas esposas:

 

Essas mulheres analfabetas, que não sabiam ler nem os ideogramas mais simples, só entendiam uma coisa: pertenciam aos homens que lhes tinham levantado o véu e que as transformaram de meninas em esposas. [14]

 

            Entre os anos de 1945 e 1985 muitas famílias se separam e nunca mais vieram a se reunir, em um ambiente de frieza, em que os pais e filhos não se abraçavam ou beijavam, porque, segundo a tradição chinesa, não era um comportamento aceitável. [15]  

            As pessoas eram educadas para não demonstrarem alegria com a liberdade, como parecia que o Partido lhes estava dando; do mesmo modo que escondiam o sofrimento com a morte dos amigos, parentes ou a perda da família; para evitar conflitos com os governantes, revelando desagrado com as iniciativas políticas adotadas. [16]

           Muitos aspectos da obra revelam o desprezo, abandono e desvalorização dispensados às mulheres, cuja felicidade e busca do afeto, e de formação de uma família baseada no amor, eram obrigadas a descartar ...

            A violência física e psíquica entre quatro paredes eram uma constante, mas seguindo as tradições, as mulheres guardavam silêncio, em benefício da própria família e para evitar maiores contratempos para si mesmas se falassem a verdade.

          Bibliotecas não eram comuns até porque o conhecimento que os livros continham podia distorcer os entendimentos; conforme um relato da autora Xinran, ao encontrar uma biblioteca escondida em uma aldeia remota, guardada a “sete chaves” por um velho professor:

 

O professor contou que a biblioteca era um segredo que ele pretendia deixar para as gerações futuras. Por mais revolucionárias que sejam, disse, as pessoas não podem viver sem livros. Sem livros não compreenderíamos o mundo; sem livros não poderíamos nos desenvolver; sem livros, a natureza não pode servir à humanidade. Sabia que aqueles eram exatamente os livros que a Revolução Cultural estava destruindo. [17]

 

            Estilos de vida diferentes, valores, tradições, liberdade profissional, igualdade entre homens e mulheres; acesso ao saber formal em escolas e universidades, dentre outros direitos, tornariam os chineses “ocidentalizados”, o que era indispensável em tempos de Revolução Cultural (Século XX, 2ª metade).

            Muitas perguntas são feitas pela autora, mas algumas parecem, aos olhos ocidentais, absurdas, como a seguinte: “Quanto valia, exatamente, a vida de uma mulher na China?” [18]

            Partindo desta análise, Xinran saiu em busca de outras respostas, deparando-se com o medo, desconfiança e silêncio das próprias mulheres; incultas, submissas e acostumadas com os maus tratos e desprezos de seus maridos, filhos e parentes.

            No relato sobre a “Colina dos Gritos”, a autora traz descrições chocantes sobre a vida das famílias, em que mulheres e meninas são “compartilhadas” entre vários homens ... (“Ninguém sente compaixão alguma pelas esposas compartilhadas; para eles, a existência das mulheres é justificada pela sua utilidade”). [19]

 

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

            Quando a Agenda 2030 (ONU, 2015), no ODS 5 elege como Objetivo promover a “igualdade de gênero” e favorecer, por todos os meios o “empoderamento das mulheres e meninas” há vários motivos, mas, sem dúvida, é o reconhecimento do grande “potencial humano” que elas representam no desenvolvimento sustentável. [20]

            Proclamam que a “igualdade de acesso à educação de qualidade, aos recursos econômicos e à participação política” são fundamentais ao exercício pleno dos direitos humanos e às oportunidades. [21]

            Considera que houve (e ainda há) um “hiato de gênero”, nos âmbitos global, regional e nacional, impedindo que mulheres e meninas sejam tratadas em igualdade de oportunidades, excluídas do acesso à educação, trabalho e liberdade de vida, afeto e profissão.

          Igualmente, o Pacto Global (ONU, 2000), em um de seus princípios (6), expressamente conclama as empresas a “Estimular práticas que eliminem qualquer tipo de discriminação no emprego”. [22]

            Em suas propostas de elucidação das práticas chinesas, nem sempre Xinran tenha recebido a merecida aprovação, ao contrário foi perseguida e criticada, porque enfrentou tradições arraigadas, embasadas em extrema maldade e desprezo pelas mulheres e meninas. Todavia, houve reconhecimento de suas contribuições ao bem-estar feminino, quando o Departamento de Segurança Pública lhe conferiu o prêmio “Flor da Força Policial”. [23]

            Atualmente, com espanto e repúdio ainda se pode constatar muitas destas práticas desprezíveis ao redor do mundo e, no Brasil, o grande número de feminicídios é uma evidência indiscutível deste fato.

            Pela educação e políticas públicas de combate à discriminação de toda ordem contra mulheres e meninas, a sociedade brasileira poderá reverter este quadro de injustiça, violência e desapreço por qualquer pessoa, não apenas do sexo feminino.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

 

OAB-PR. Cartilha do Pacto Global. Comissão da Mulher Advogada da OAB/PR, 2017.

 

ONU. Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: <www.undp.org>. Acesso em: 01 mar. 2025.

 

XINRAN. As Boas Mulheres da China: vozes ocultas. Trad. Manoel Paulo Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

 

REFERÊNCIAS



[2] XINRAN. As Boas Mulheres da China: vozes ocultas. Trad. Manoel Paulo Ferreira. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

[3] XINRAN, op. cit., p. 9.

[4] XINRAN, op. cit., p. 66.

[5] XINRAN, op. cit., p. 15.

[6] XINRAN, op. cit., p. 50.

[7] XINRAN, op. cit., p. 51.

[8] Idem.

[9] XINRAN, op. cit., p. 60.

[10] Idem.

[11] XINRAN, op. cit., p. 123.

[12] Idem.

[13] XINRAN, op. cit., p.129.

[14]  Idem.

[15]XINRAN, op. cit., p.131.

[16] XINRAN, op. cit., p.133.

[17]XINRAN, op. cit., p.189.

[18] XINRAN, op. cit., p.15.

[19]XINRAN, op. cit., p.242.

[20] ONU. Transformando Nosso Mundo: A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Disponível em: <www.undp.org>.

[21] Idem.

[22] OAB-PR. Cartilha do Pacto Global. Comissão da Mulher Advogada da OAB/PR, 2017.

[23] XINRAN, op. cit., p.179.

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