NEUROCIÊNCIAS: DECIFRANDO O CÉREBRO HUMANO
COM DIGNIDADE
Maria da Glória Colucci[1]
1
INTRODUÇÃO
Durante
toda a sua trajetória o ser humano tem se debatido em persistente luta contra a
morte. O prolongamento da vida em condições de saúde e bem-estar tornou-se
objetivo central das denominadas biociências, impulsionando conquistas
científicas assombrosas nas últimas décadas.
Durante
séculos as doenças foram vistas como castigos, de modo que os sofrimentos,
dores, feridas e indisposições deveriam ser suportados com resignação até que a
divindade retirasse a pena inflingida ao doente ou lhe sobreviesse a morte.
Alcançar
a longevidade entre os primitivos seres humanos conferia-lhes uma áurea de
benesse divina, acompanhada de temor reverencial do grupo, como símbolo de
sabedoria. Os mais velhos são até os dias atuais, em culturas mais primevas,
consultados sobre poções mágicas, chás de ervas ou raízes, utilizados como
“remédios” para afastar doenças ou maus espíritos.[2]
Ao
ver de Marvin Perry, os egípcios (2.600 a.C) se destacaram na Medicina mais do
que os mesopotâmicos:
Identificaram as enfermidades,
reconheceram que a falta de higiene estimula o contágio, tinham algum
conhecimento de anatomia e realizavam operações-circuncisão e talvez a remoção
de abscessos dentários.[3]
Também,
entre os egípcios a prática da dissecação de cadáveres se dava com finalidades
religiosas, para o embalsamamento e preservação dos corpos para a vida além da
morte.
Foram,
porém, os gregos que se dedicaram à investigação dos órgãos internos, mediante
a dissecação de cadáveres, descobrindo a presença de veias, músculos, sangue e
tecidos humanos cujas funções tentaram desvendar.[4]
Na
Idade Média, com as epidemias, os médicos se aperceberam que os pacientes
apresentavam os mesmos sintomas, sendo possível encontrar semelhanças entre
eles e comparar os procedimentos que ofereciam resultados satisfatórios.
Na
Renascença, por volta dos séculos XIV-XVI, deu-se grande ênfase aos estudos da
anatomia humana, quando se concentrou o interesse na pesquisa do sangue.[5]
Por
outro lado, somente após o século XVII começou-se a ver o corpo humano como um
organismo (sistema), cujas funções eram coordenadas entre si. Constatou-se que
os órgãos eram feitos de “células”, em razão da descoberta do holandês Antoni
Von Leeuwenhoek, em 1673, utilizando um microscópio.[6]
Graças
à observação de minúsculas estruturas sob as lentes de pesquisadores, um novo
mundo se descortinou aos olhos dos cientistas, permitindo a descoberta de
vacinas, antibióticos e os mais potentes fármacos no combate e prevenção de
doenças.
Nos
dias em curso, a Medicina Diagnóstica por imagens tem possibilitado, com
antecedência, prevenir o avanço de doenças, detectadas por meio de tomografia,
ressonância magnética, ultra-sonografia, ecocardiograma, eletroencefalograma
etc.[7]
Exames
laboratoriais, cirurgias avançadas por laser, transplantes, próteses, órteses e
os mais sofisticados métodos de tratamento procuram oferecer, além da
longevidade, qualidade à vida humana; porém durante séculos quase nada se soube
sobre o cérebro e sua relação com a saúde e o bem-estar.
2
NEUROCIÊNCIAS E BEM-ESTAR NO SÉCULO XXI
Em razão da complexidade do
cérebro humano, ainda pouco se conhece sobre suas funções e reais
possibilidades na restauração da saúde e controle de doenças. Disfunções
diversas que acometem os seres humanos, desde que se procura desvendar a
natureza e origem das doenças, são quase desconhecidas como antes, porque ainda
as pesquisas estão no início, sabendo-se pouco sobre o funcionamento do cérebro
humano.
No
entanto, a plasticidade dos neurônios, sua estrutura e composição; o
processamento das sinapses, aliadas às descobertas das neurociências, têm
despertado intensas e novas expectativas sobre os limites éticos à investigação
científica do cérebro humano.
Doenças
como a depressão, Alzheimer, dependência química de drogas lícitas ou não,
ainda permanecem como obscuros meandros do cérebro não desvendados pelos
cientistas.[8]
Por
outro lado, a sociedade aguarda, ansiosamente, que graves problemas sociais,
como a extrema violência, esquizofrenia, diferentes tipos de demência, perda da
memória e do afeto, que enchem as ruas de andarilhos, encontrem nas descobertas
do funcionamento do cérebro a causa de tais comportamentos humanos,
incompatíveis com a sua dignidade.
Também,
o consumo desordenado (oniomania), que compulsivamente leva ao endividamento e
à acumulação excessiva de bens; causando o isolamento e o suicídio pelo
desespero, teriam, para além de outras causas, raízes em algum tipo de “disfunção
cerebral”?
Estas
e outras questões conduzem e despertam o interesse da sociedade e dos
neurocientistas, como Suzana Herculano-Houzel analisa, ao estudar a saúde
física e sua relação com o cérebro, afirmando que “[...] nossa capacidade de
sermos felizes depende do bem-estar simultâneo do cérebro e do corpo”.[9]
E
prossegue, ressaltando que a conhecida frase “mente sã em corpo são” é,
realmente, verdadeira, porque os neurocientistas já constataram que:
O bem-estar depende de uma boa
qualidade de vida, que requer capacidades mentais intactas. Essas, por sua vez,
exigem um cérebro saudável, com um abastecimento constante de oxigênio e
energia proporcionado pelo sangue para manter os neurônios (as células do
cérebro), funcionando, quer estejamos acordados, que estejamos dormindo. A
saúde cardiovascular é, portanto, vital para a saúde do cérebro e da mente.[10]
O
sofrimento físico e psicológico, como nas já conhecidas doenças
psicossomáticas, traduzem situações que decorrem da relação do cérebro com o
estresse crônico, mimando as forças do indivíduo.
Diante
de tantos questionamentos envolvendo descobertas científicas na relação do
cérebro com as doenças, surgem indagações sobre os limites às intervenções terapêuticas
ou mesmo cirúrgicas no cérebro humano, que à Neuroética cabe estabelecer.
3
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As neurociências em sua evolução têm proporcionado
significativos avanços em relação à qualidade de vida da pessoa no século XXI.
Embora ainda se apresente como uma nascente área das biociências, os conflitos
que oferecem são complexos, não apenas nas pesquisas, mas, também, nas
possibilidades práticas de utilização em terapias e procedimentos
médico-cirúrgicos dos resultados já obtidos em laboratórios, ou na
industrialização e manipulação de fármacos.
No entanto, respeitados limites éticos à utilização de
novos procedimentos, com a criteriosa observância do princípio constitucional
da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, Constituição 1988), as neurociências
têm muito a oferecer à sociedade nas próximas décadas.[11]
Uma das indagações sobremodo instigante é o que
Francis Fukuyama denomina de “genética do comportamento”, cujas raízes e
possibilidades se encontram no cérebro humano e na capacidade de manipulá-lo e,
vale dizer, aperfeiçoá-lo, como nos casos, por exemplo, do controle da
violência, da obesidade, dos crimes sexuais etc, valendo-se da
neurofarmacologia.[12]
Cabe, porém, à Neuroética o estudo e identificação das
diretrizes éticas aplicáveis às neurociências, lastreados na Bioética e seus
princípios, como se examinará, oportunamente.
[1]
Advogada. Mestre em Direito Público pela UFPR. Especialista em Filosofia do
Direito pela PUCPR. Professora titular de Teoria do Direito do UNICURITIBA.
Professora Emérita do Centro Universitário Curitiba, conforme título conferido
pela Instituição em 21/04/2010. Orientadora do Grupo de Pesquisas em Biodireito
e Bioética – Jus Vitae, do UNICURITIBA, desde 2001. Professora adjunta IV,
aposentada, da UFPR. Membro da Sociedade Brasileira de Bioética – Brasília.
Membro do Colegiado do Movimento Nós Podemos Paraná (ONU, ODM). Membro do IAP –
Instituto dos Advogados do Paraná. Premiações: Prêmio Augusto Montenegro (OAB,
Pará, 1976-1º lugar); Prêmio Ministério da Educação e Cultura, 1977 – 3º
lugar); Pergaminho de Ouro do Paraná (Jornal do Estado, 1997, 1º lugar). Troféu
Carlos Zemek, 2016: Destaque Poético.
[2] SAUWEN, Regina Fiuza e
Hryniewicz, Severo. O Direito “in vitro” – Da Bioética ao Biodireito. 2 ed. Rio
de Janeiro: Lumen Juris, 2000, p.151.
[3] PERRY, Marvin. Civilização
ocidental: uma história concisa; trad. Waltensir Dutra, Silvana Vieira.3ed. São
Paulo: Martins Fontes, 2002, p.18.
[4] YAMASAKI, Sergio (coord).
As grandes conquistas da humanidade. São Paulo: Klick, 2003, p.65.
[5] Ib.
[6] Id., p.67.
[7] MARCELINO CHAMPAGNAT,
Hospital. Novos recursos tecnológicos trazem maior precisão a exames e
cirurgias. Revista: Ed. 11, set. 2016, p.16-19.
[8] HOUZEL, Suzana Herculano.
O cérebro nosso de cada dia: descobertas da neurociência sobre a vida
cotidiana. Rio de Janeiro: Vieira & Lent, 2002, p.183.
[9] Id., p.17.
[10] Id., p.19.
[11] BRASIL, Constituição da
República Federativa do. 1988, disponível em www.planalto.gov.br
[12] FUKUYAMA, Francis. Nosso
futuro pós-humano: consequência da revolução da biotecnologia. Trad. Luiza X.
de A. Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 2003, p.32.
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